De céus e discos voadores… (nov.2008)

“London, London” é uma das minhas músicas favoritas. Caetano a escreveu do exílio e, no refrão, confessa: “while my eyes go looking for flying saucers in the sky”. Nunca havia me perguntado se meu apreço por essa música teria relação com essa frase, mas suspeito que sim. Sou super fã de céus. Céus, no plural, pois existe mais de um. Pode me perguntar que lembro do céu de quase todos os lugares por onde já passei: terei quase sempre alguma observação sobre a tampa azul ou cinza daquele ponto do planeta.

Não sei ao certo quando começou isso. Teria que perguntar a meus pais. Mas, definitivamente, Los Angeles foi um marco. Quando da minha primeira vez nesta cidade, não pude me conter. Estava transbordando de céu. De azul. Onde já se viu uma capital com milhões e milhões de pessoas onde o horizonte é vasto e tridimensional? Me encantei. Existe uma explicação razoável. LA é terra de terremotos. A área aqui é vasta, como o céu, por culpa das construções que, salvo raras exceções (como Downtown, Westwood e Century City), são baixas, com até três andares. Um suplício para o deslocamento sem metro, mas um elixir para os olhos.

O prazer começa cedo. Na beirada do mundo ocidental, o sul da Califórnia tem uma incidência solar elevadíssima (eu diria que tem mais de 300 dias de sol absoluto por ano, baseado em minha experiência aqui), e o dia começa bem cedo. O Sol da manhã, embora não seja meu favorito, é uma característica não só marcante, mas apaixonante da cidade. Ficamos todos viciados nessa fotossíntese perene. Confesso que não é dos melhores cenários para quem precisa trabalhar. Da janela do escritório, aquele azul sem falhas, sem nuvens, sem diferença de tonalidades: simplesmente azul. Da cadeira diante do computador, você pede para estar fazendo qualquer outra coisa que estar ali sentado, ao menos ir lá fora absorver um pouco daquela vitamina que vem com os raios ultravioletas.

Muita gente de outras partes do país acha os angelenos muito praianos, pouco atrelados ao trabalho. De minha perspectiva, sempre vou achá-los trabalhadores, inclusive por causa do tempo maravilhoso, ao qual a maioria resiste bravamente. LA é também terra de esportes. E o melhor de tudo: sem suor, pois a umidade relativa do ar daqui faz de Brasília uma sauna amazônica. Não cai uma gota por aqui desde fevereiro. Juro. Por isso mesmo, tem sempre um correndo, jogando um freesbee, passeando com o cachorro ou simplesmente deitado na grama, absorvendo energia solar. Esta história da umidade, aliás, dizem que tem a ver com a qualidade do céu.

No Griffith Observatory, um prédio lindo da década de 30 onde funciona o observatório celeste daqui, ouvi dizer que a ausência de bolsões de umidade e também de nuvens deixa a observação dos astros mais clara. Realmente, LA não tem condensação, e o ar fica mais fino, atrapalhando a visão somente a poluição amarelada que se deposita entre o céu e a Terra, lá na linha do horizonte, emoldurando esta obra de arte. “Céu de Brasília/Traço do arquiteto”, não é o que canta Djavan? Outro dia, de passagem pelo observatório em uma noite especialmente quente, um pôr-do-sol especialmente especial deixou quem lá esteve boquiaberto. As luzes da cidade, a poluição, o contorno de Hollywood Hills contra a parte baixa do céu onde ainda havia uma luz avermelhada, o degradé lilás que introduz o azul, e onde víamos, a olho nu, Vênus, agraciando-nos com sua presença. Foi lindo.

O pôr-do-sol e a noite são meus horários favoritos. Primeiramente, o Sol se põe no mar. Isso, em si, já é singular e cinematográfico. Em segundo lugar, neste momento, se você dá as costas ao Oceano Pacífico e se vira para a costa, a vegetação rara das colinas em processo de dunificação revela porções arenosas onde o Sol, incidindo diretamente, brilha como ouro. Não estou exagerando. Se estiver longe do mar, tudo bem também. O contorno das colinas no horizonte em escurecimento são tão notórios daqui que ilustram a abertura da 20th Century Fox, já repararam? Outro dia mesmo vi a lua em formato DreamWorks, minguante, na altura das folhas de uma palmeira, que por sua vez parecia apoiada no alto da rua que subia. Câmeras não conseguem registrar essas belezas. Quando vira noite então, o momento é ainda mais efêmero e fugidio. O melhor céu de LA.

Não é preto, escuro, como reparo ser na maioria dos lugares do Brasil (mesmo em noite de lua cheia). Também não é como os que vi recentemente no interior da França (nem por isso menos belos), onde a luz da Lua parece uma anunciação divina que se recusa a esconder-se por trás das nuvens e que está vindo levar a todos nós. Não é assim. É claro, muito claro. Quase de dia. É meio lilás. Independente da Lua. Nem sempre vemos estrelas, mas sempre vemos muitos aviões, descendo num balé espiralizado, aguardando o momento de tocar a pista do LAX (Los Angeles International Airport). Cartão postal. Do alto das freeways, em uma cidade horizontalizada, estamos de repente como que no alto de um farol, e de lá temos visão privilegiada das palmeiras – tantas – que se impõem acima dos telhados. Suas silhuetas mais bem-definidas à noite que de dia, deixando seu traçado no céu claro e uniforme.

E tem sempre os céus de incêndio, que nesta época do ano pipocam em momentos diferentes. Meio sádico isso da minha parte, mas adoro o céu em temporada de incêndios, mesmo sabendo que vários estão perdendo suas casas e que a temperatura chega a manter-se acima dos 30 graus celsius mesmo depois das 22h. Compreendo, também, que tudo isso que descrevo são paisagens extremamente urbanas – aviões aterrissando, etc. – e que talvez pareça uma louca sem padrão estético que esta há tanto tempo sem ir ao campo que já se esqueceu do que é o céu do interior. Não é isso. Adoro o céu rural também, mas considero na verdade uma aptidão que desenvolvi: encontrar beleza no concreto, no urbano, no cotidiano. Tente você também.

Até vir para Los Angeles, sempre achei um exagero essa história de escolher onde viver a partir do clima. Para quem já morou na neve de Denver, no vento de Washington D.C. ou no reino de Mordor de Juiz de Fora, onde a nuvem cinza é perene, isso tudo me parecia frescura demais. Mas existe a razão histórica do desenvolvimento dessa cidade que não me deixa mentir. Até a vinda dos estúdios de cinema para a Califórnia, na década de 20, Los Angeles era mais uma parte de um enorme deserto mexicano. Os estúdios, por sua vez, vieram por causa do clima. Porque não chove. Porque é sempre perfeito para filmar. Porque é lindo. Porque milhões de pessoas também se convenceram. Eu mudei. O céu me mudou.

Desconfio que quem não presta atenção no céu não anda nada bem. É grande demais para passar despercebido. É só se distrair um pouco do próprio umbigo. Não perdôo nem mesmo os habitantes de São Paulo, onde até os pequenos quadriláteros de nuvem visíveis escondem instantes de epifania estética. Mas é verdade que poucas vezes encontrei pela vida quem me acompanhasse nesse esporte e paixão de observar o céu. O primeiro foi o amigo mais jovem que tenho. Com quase 23 anos de diferença, descobrimos que sem um repertório comum (eu falava português e ele uma língua solitária de balbucias silábicas) o jeito era olhar a Lua. Ao me ver, logo estendia a mãozinha em direção à janela, e lá ficávamos.

Só encontrei mais uma pessoa assim, agora da mesma geração. Por telefone, me perguntava como estava a Lua 500km ao sul, distancia que nos separava. Alma gêmea. Há, portanto, além de Caetano e mim, ao menos mais duas pessoas “looking for flying saucers in the sky”. Mando aviso quando os encontrar.

Image

LA sky (by Fábio Nascimento)

Paris de Janeiro (jan. 2010)

Antes de encaixar a cestinha na bicicleta e abrir as janelas para trocar o ar “calefacionado” da casa, rego as plantas da janela Sul, que no inverno conquistam poucas e valiosas horinhas de raios de sol, e as da janela Norte, menos favorecidas luminarmente, mas por essa mesma razão estrategicamente posicionadas por família e reino. Tudo pronto. Na saída, cruzo com o senhor do bigode que, diante de outro insistente e sorridente bonjour, me decepciona mais uma vez com um sonoro silêncio, e desvia o olhar. A família chinesa do primeiro andar cozinha algo de fortíssimo aroma, e a lata de lixo reciclado chega ao limite de sua absorção semanal. É um sábado de janeiro.

Os bons cidadãos de fim de semana e clientes fiéis se espantam, com uma ponta de inveja, diante da calorosa saudação gaulesa que recebo da dame da padaria da esquina. Um sorriso e um “como vai”. Suspeito ser a melhor padaria do mundo, tratando-se da melhor que já encontrei na França e sendo este o reino da massa folhada e assada com muita manteiga. O tiozinho das frutas já separa os kiwis, as bananas e laranjas – “nada de saco plástico, já sei”, ele diz, não sei ao certo se para mim ou para si próprio –, e a garota bem-vestida, acompanhada de um saudável cachorro, ocupa seu posto habitual na esquina, braços em punho, mãos abertas para o céu, como em oração, o ritual diário de seu ganha pão na porta do açougue.

Morro acima, passagem pelo parque; muitas bicicletas neste trajeto. Será por que é sábado? Por que faz sol? Não necessariamente. Há sempre muitas bicicletas, e muitos sorrisos de cumplicidade entre os que optam pelo método de transporte da moda entre os ambientalistas vigilantes. Vovós, fumantes, mães com dois filhos, mendigos, vovôs com guarda-chuvas. Todos sobre duas rodas.

Dia de bicicleta, dia de feira. E é nela que chego à minha. Para encontrar Jean-Michel, o camponês de dedos espessos que, semanalmente, traz nossos legumes e frutas. Cada um pesa o seu. “Um cesto inteiro ou meio cesto?” “Só meio”, respondo, “senão terei que dar batatas e cenouras de presente em todos os aniversários do ano!”, completo só em pensamentos. “Sete e cinqüenta, mademoiselle”, Jean-Michel me lembra, entre suas abóboras e garrafas de mel natural. Quem sabe daqui uns meses a gente começa a se cumprimentar, tal e qual ocorreu com a senhora da padaria. Não há pressa. Afinal, sábado que vem estou de volta, e ele também.

A volta para casa exige novo equilíbrio. A cestinha quando cheia muda o senso de gravidade da bicicleta, mas para baixo… já sabe. Em casa, enquanto as cenouras de orgulhar Pernalonga decantam a grossa terra de molho na pia e as verduras secam sobre o pano de prato, um pão caseiro descansa ao lado da calefação para fazer a massa crescer. Ainda faltam 45 minutos, e enquanto isso aproveito para colocar um chimarrão na cuia e checar a correspondência. Uma carta da prefeitura solicita novos documentos – mais precisos e mais inúteis – a respeito do meu estado civil, minha fonte de renda, meu visto de permanência, meus objetivos a curto e longo prazo neste país. Quanta celulose. Quanto carimbo. Quanta carta de motivação. Burocracia que se cumpre a fim de colher os benefícios em vias de extinção de um Estado maternal. Os livre-empreendedores que me perdoem, mas não deixo passar os auxílios moradia, saúde, transporte, alimentação e ainda descubro os incentivos à viagem de férias, ao retiro espiritual, à prática esportiva. Quem sabe ainda consigo deixar a declaração de próprio punho no correio esta tarde.

As verduras já secaram e o pão, devidamente recheado com nozes e castanhas, está no forno. A vizinha toca a campainha para deixar as chaves de casa, com precisas orientações sobre a quantidade de água e luz necessárias à sobrevivência de cada plantinha, e o leite, os sucos e os queijos que mofariam em sua geladeira durante a ausência são o presente de despedida. Bon voyage. “A prefeitura do quartier já instalou um posto de coleta de pinheiros de Natal em frente ao parque”, ela me lembra, e prometo, na semana que vem, deixar o seco símbolo natalino na caçamba que se enche de tristes arvorezinhas resignadas. “Aproveito também para deixar as pilhas e lâmpadas usadas no recipiente do mercado ao lado”, penso eu; “fica no caminho”.

Começa a nevar. Bem de leve. Tão leve que os flocos parecem traçar um movimento ascendente, girando, como vaga-lumes, subindo ao redor das luminárias de rua – a esta época acesos desde o final da tarde que, confusa, virou noite antes da hora. Agasalhada e com as bochechas levemente rosadas por causa do frio vento que bate no rosto em movimento sobre rodas, brinco em ziguezague sobre o asfalto encoberto. Sinalizo com o braço esquerdo para passar pelo cruzamento, atravesso a ponte sobre o canal, vejo a espessa camada de gelo onde os pássaros passeiam, caminhando sobre as águas, e começo a perder o tato nos dedos dos pés e das mãos.

Paris, para mim, é isto. Em janeiro.  Meu bairro. Minha vidinha.

Aqui fora faz -7 graus Celsius. De relance, vejo um jornal repousando, esquecido, sobre uma cadeira em um café. “Franceses são o povo mais pessimista do mundo, conclui pesquisa”. Uma foto de uma cinza fila de metrô me diz sobre a greve no sistema de transportes da capital enquanto a outra mostra os centros de vacinação contra a gripe A. Penso ainda na Paris dos turistas perdidos ao redor da Galerie Lafayette. Amontoados em frente à fonte de Saint-Michel ou nas filas da Notre Dame.

E fico intrigada com a verdade destas tantas cidades em uma só. Tantas pessoas, tantas vidinhas, mas só uma Paris.

Of silence and men

– “Will you come back?”, he asks in a trembling voice.

His wife is putting away the clean laundry pile that’s over the couch, hiding it from the public eye, is what I suspect. I look back at him, his arms searching for something or someone to lean on as we go over a step to walk into the kitchen together, all of us – family and film crew. It is in this kitchen that he tells us his story.

– “Yes, of course, we’re coming back, on Friday, as we discussed before”, I whisper, lending him my arm for balance. “We can have you sign these papers then.”

I nod to the sheet of paper I have under my right arm, the one I’m using to help him sit by the kitchen table. He then lets go of me to sit down.

Seu Juca lives in a simple house he built himself from scratch and he has a family to call his own – wife, kids, in-laws, grandchildren – all of which stand beside, behind and around him as we come in for each interview. We met him three weeks before the shooting for the film started, during the preparation we conducted to find the right locations, define the best angles from which to film, set the dates for our return with the crew and meet with the other people who were going to be interviewed. A local teacher led us in the right direction, which brought us to him.

– “And you’ll come back, right?”

– “Yes. On Friday.”

He stares me in silence.

– “Not on Friday.”

He waves his hand in slicing motion.

– “All right. That’s fine. Would Saturday be a good day? Better?”

Everyone is quiet.

– “No. Not Friday nor Saturday. Will you come back?”

He meant if we were coming back after the interview, once the movie was finished.

– “Yes”, I reply, “Yes”.

His age unknown to us, Seu Juca is an elderly man with one leg 9cm shorter than the other. The left leg shorter than the right one. He survived a shoot out between workers and the army at a giant steel factory that is the live and pulsating core of the city he lives in, Ipatinga, in Brazil. “The Massacre of Ipatinga”, as it came to be known, happened on October 7th 1963. A young worker at the time, Seu Juca was coming in to the plant as some of his colleagues protested in front of the site against their labor conditions, a quarrel that had begun the night before. To control the situation, the army was called in. Their confrontation got out of hand, the soldiers opened fire and Seu Juca, among others, got hit. In 1963, Ipatinga wasn’t a municipality, so there was still no local police.

Political interpretations of the incident link it to the military coup d’état that took place almost six months later, in 1964. And four weeks after the new government was established, Ipatinga was emancipated. The number of casualties is, to this day, unknown. Many were those who fled town and never returned.

Seu Juca wasn’t directly involved in the protest, but collateral damage. The bullet was never removed, its fragments spread between his shin and his thigh. He went back to work a few months later, but once his contract ended, he was laid off. He doesn’t properly limp, but swaggers in a particular manner, much like a pirate. His walk is accompanied by a fixed yet vague stare some feet ahead of him, down towards the ground. He shows only minor difficulty moving about his small house, like when he goes up stairs or needs to sit down. Outside, he uses a broomstick to shake the branches of a lemon tree in his front yard, but lets the kids pick them up and bring them inside to the kitchen.

To this day, there are roughly no celebrations held in memory of those who either survived it or perished. The local steelworker’s union is an exception. Over the last few years, they have tried to contact Seu Juca on a number of occasions. They saw a possibility there, but Seu Juca wanted no part in it. During the shooting of the film, the union even tried to use us to get close to him, but we refused.

– “No one stopped by to see how we were doing. No help was ever offered.”

He looks around behind his back. We can see the garage, a bicycle leaning against the wall, stairs leading up to the roof, concrete apparent and no cover paint. He raised his family, built his house and lived his life on a state pension.

– “How come they only show up now? We don’t want nothing to do with them. We won’t sign nothing. They’ll just take what they need and never come back.”

When we come back for the interview, the kitchen is bright, which forces our photographer to adjust the lighting. Untroubled by it, Seu Juca sits facing the window where the sun is reflecting. Discrete yet visible, a thin layer of opaque moisture covers his eyes. There aren’t any tears. I never saw him cry.

– “Do you understand why we need your signature, why we need you? Your testimony is truly valuable to the story we’re telling.”

– “What are you going to do with it, with my signature?”

– “Keep it. It’s stays with us.”

– “Oh…huh. You’ll have to talk to my wife too.”

Later that day, from home, I call his house and I repeat my monologue to his wife, who promises to talk it over with him. I stress how important it is that he signs it.

– “I’ll talk to him, ok, we’ll discuss this. You’ll call us back?”

I don’t tell her we can’t use the footage if his signature is not there.

On the day Seu Juca signed the papers, I came back, alone, and he held my hand.

Fourteen months after this took place, Seu Juca died. We got the news by email, one year after his passing. There was a moment of silence, not a solemn one, but one for remembering. He never watched the film once it was finished. We managed to get copies out to all of the others, but no one ever answered the phone at Seu Juca’s place and we weren’t sure if they were still around or if perhaps they had moved.

Before he died, he was given a small sum of money by the government to amend the situation, half a century later. Not nearly what was rightfully his, but a settlement, nonetheless, and a sense of closure, I suppose. He used the money to take his wife to Portugal, where their son lives. She passed away shortly after their return home and Seu Juca followed some two weeks later.

– “For a long time, no one opened their mouths”, he tells, in a scene that made the final cut.

For 21 years, the country was smothered by a military dictatorship.

There is a memorial built and standing in Ipatinga to remember that day. By a shopping mall, it sits in the middle of a turning point of a busy 4 by 4 lane avenue, inaccessible to pedestrians. There’s nowhere to cross or to park. No more than a landmark to, perhaps, help locate the mall. We took Seu Juca there on Sunday, but never made it across the avenue. Not with his bad leg.

– “And now, still we hear nothing… it’s been forgotten.”

Over two years have gone by since we shot “Silêncio 63” and 48 years have passed since the events took place. Seu Juca died over a year ago. There’s a signed contract in a folder at home and, as promised, we’re keeping it.

But we never went back to see him.

José Elias dos Santos ("Seu Juca"), at home in July 2009 (Ipatinga, MG/Brazil)

Visit: www.silencio63.com

Hitching a gang-ride in Benin

Alice Traoré, Maria Bitarello & Camille Barrat

Cars in Benin, Africa, are communal means of transportation. Motorcycles, we see thousands of those: taxis, delivery and pick up, three family members crowded in one of them, the whole lot. But not cars. There aren’t any in the streets, only in the fringes of town, improvised bus stations where car owners and ride seekers unite under a tree and wait. There’s no departure time, no destination established, no precise number of passengers determined. So we wait. For more people, for the right people, headed in similar directions. Payment is like gambling. There’s always an understanding in the end, and no matter how much of a bargain you think you’ve come across, the house always wins. Finally, there are 12 of us. In one car. Four up front, five in the back and three in the trunk, including myself. I see kids, bags, chickens. On top of us, strapped around the hood, bags of crops, seeds and a couch. The wheels give in and we’re running inches above the ground. Nothing works on the control panel. All lights are off, no windows, doors barely shut, only a non-stop horn blows away for the four hours it takes us to drive 100km south, from Kétou to Cotonou, over a red dusty road. As we arrive at the economic capital, I look for a place to change into my outfit before heading into the airport, for what I was wearing in the car is now beyond public exposure. I look like I survived a mine explosion and have just walked out alive. Dressed in better attire, I board the airplane to leave.