Portraits from Nepal

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Photos by Maria Bitarello.
Canon AE-1 / Kodak Portra 400
Kathmandu, Bandipur, Gurung Lodge,
Gurka Training Camp / Nepal 2014.

Como prosperar pela transparência e diversidade

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Tim Jackson é um homem corajoso com uma ideia ousada: prosperidade não é sinônimo de crescimento.  Para fazer esse conceito valer e não pregar para os convertidos, os resultados da pesquisa conduzida por ele não foram apresentados na Universidade de Surrey, onde é professor de Desenvolvimento Sustentável e coordena o Grupo de Pesquisa em Estilos de Vida Sustentável. O trabalho virou o livro “Prosperidade Sem Crescimento – Vida Boa em um Planeta Finito” e foi encomendado pelo governo britânico ao economista ambiental na época em que era integrante da Comissão de Desenvolvimento Sustentável do Reino Unido. E os resultados foram:

1)   Crescimento econômico constante não garante felicidade;
2)   Os recursos do planeta são finitos;
3)   A ganância humana, aparentemente, não tem fim.

Da Inglaterra, onde vive, Tim Jackson conversou sobre diversidade no ambiente de trabalho, produtividade e felicidade, igualdade de direitos dos homens e das mulheres, violações éticas de multinacionais e motivos para se manter otimista. Mudar, segundo ele, não é só preciso; é possível.

Leia a entrevista completa com Tim Jackson que
foi publicada na Design de Causas em 2015.

 

Rádio: Universidade Antropófaga

7 entrevistas e um vídeozinho.
Dá play.

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/ze-celso-o-teatro-a-crise-e-os-misterios

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/ze-e-prestes-o-cavaleiro-da-esperanca

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/entrevista-com-nash-laila

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/entrevista-com-danielle-rosa

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/ricardo-ambus

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/entrevista-com-cidoca

https://soundcloud.com/universidade-antrop-faga/ismael-de-queiroz

Todas as entrevistas foram realizadas pela Segunda Dentição
do Núcleo de Comunicação da Universidade Antropófaga,
no Teatro Oficina – São Paulo, SP (2015) –
e estão disponíveis no site.
Edição e mixagem de áudio + câmera: Maria Bitarello.
Edição de vídeo: Núbia Neves.

What is Poetry?

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São Paulo Gotham City e seus parques chuvosos

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Uzyna Oficina

Photos by Maria Bitarello
Novembro 2015 @ Teatro Oficina Uzyna Uzona
Canon AE-1, Ilford Delta 3200
Ensaios de “Mistérios Gozósos”, a partir do
“Santeiro do Mangue”, de Oswald de Andrade.

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A primitive at heart

Listen to the podcast:

Created by Maria Bitarello.
Recordings made in Pokhara and Kathmandu, in Nepal, in December 2014.
Interview by Christina Ammon.
Sound editing and mixing by Rodrigo Lopes.
My everlasting gratitude to Dot Fisher-Smith.

Coeficiente de beleza

Concierge

 

Esse texto foi publicado na revista “Viagem e Turismo”, de agosto de 2015.

Só a tragédia salva

Toda vez que levo alguém ao Teatro Oficina pela primeira vez, decido falar um pouco sobre a diferença entre o drama e a tragédia. Teatro – no Brasil, no Ocidente, hoje e já há muitos e muitos séculos – é, quase sempre, drama. Assumo que, de partida, é isso que minha companhia daquela noite espera do espetáculo: palco, cortina, palmas e uma historinha. O drama deixou-nos – o público – mal-acostumados com essa estrutura de historinhas e avessos ao simbolismo. No cinema é a mesma coisa. Quando esses elementos narrativos lineares não estão presentes, menos pessoas têm energia pra acompanhar. Ali, na porta do Teatro Oficina, então, no coração de São Paulo, proponho uma possível interpretação ao iniciante: “Pense que estamos entrando em um filme do David Lynch”. É um alerta, uma proposta, um convite.

Embora não seja bem isso também. O Oficina mantém viva a tradição da tragédia grega, no Bairro do Bixiga, graças à dedicação incansável de pessoas apaixonadas pelo que fazem. Ali, somos convidados ao Olimpo, a comungar com os deuses. Oficina é tragédia, é rito. E a por vezes temida participação do público nas peças do grupo não se dá apenas pelo risco (ou pela sorte) de algum(a) ator/atriz te levar pro meio da cena. Nós, o público, não somos plateia. Somos o coro. Somos multidão. Nesse ponto residia uma das birras do Nietzsche com o drama, e ele a esmiuçou em seu O nascimento da tragédia (1872). Essa separação – atores vs. público – nos tirou de cena. Nos transformou em plateia. Algo bem parecido acontece diante da TV: somos espectadores, telespectadores. Essa mudança vetorial aplicada pelos romanos matou a catarse que a tragédia grega proporcionava. A experiência coletiva e espiritual que acontece num espetáculo. A vida e os afetos que são, ambos, premissas e objetivos da arte. Na tragédia, as metáforas e alegorias são reais, muito reais. Não há atuação; há encenação. E como num filme do Lynch, não somos passivos. O texto exige nossa entrega.

O Oficina volta aos clássicos e recheia-os de referências contemporâneas. Platão, Sócrates, Eurípedes, Sófocles. Esses não envelhecem. As pulsões humanas permanecem irrespondidas, daí a importância de manter a pergunta no ar. E Zé Celso, diretor e criador do Oficina, não nos deixa esquecê-las. Quem ali vai, regularmente, como eu, tenta não se deixar devorar pela loucura cotidiana e se propõe a visitar deuses e demônios interiores. Parece assustador, mas liberta mais do que apavora. Pela catarse, expurgamos e purificamos os sentimentos. Re-significando-os. Devorando-os. Como? Damos as mãos aos ditirambos de Dionísio, adentramos a orgia. Ali, temos licença poética para existir em essência carnal. Mais corpo do que mente. Dionísio é o deus-espelho que nos revela o outro lado do véu; nos leva à aceitação. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, é como fraseia Nietzsche naquele mesmo livro de 1872. E eu concordo.

Ali no teatro, a experiência se renova a cada vez. Não sei explicar. Todas as vezes, de novo e de novo, recebo um sopro de sanidade ali dentro. As coisas fazem sentido; passam a fazer mais sentido. Há quem diga que lá só tem maluco, e embora acusações de loucura, pra mim, sejam medalhas no peito de quem as recebe, o que de mais lúcido experimento na minha semana, no meu mês, é minha ida regular ao Teatro Oficina. Não tem nada de insano e aleatório. Na real, é um privilégio morar na cidade-sede do Oficina; ser contemporânea do Zé, para vê-lo em cena; entrar no mundo que eles criam pra nós, montagem após montagem, um passaporte rumo a uma viagem que eu não costumo fazer sozinha. Preciso dos meus parceiros da multidão, do vinho, do ebó, do coro, da catarse.

A duração das montagens às vezes assusta e afasta. Você tem que chegar lá no fim da tarde pra ver a peça e só vai sair perto da meia-noite. As durações variam. Duas, três, quatro, seis horas. Existem as peças mais curtas também, mas ando desconfiada de que essas não permitem a imersão completa e irresistível que as mais duradouras nos proporcionam, sem esforço. É como ler um romance vs. ler um conto. Têm textos, obras, cujo poder reside em nos acompanhar através do tempo. Ao contrário de um texto curto, o romance nos faz companhia durante uma jornada. Dias, semanas, meses. É uma forma de arte que nos permite mudar entre o início e o fim de sua fruição. De forma semelhante, as peças de longa duração do Oficina precisam de tudo o que ocorre ali, e nós, o público, precisamos daquele tempo para imergir e desligar-nos de verdade da vida aqui de fora. É somente após passadas algumas horas que entramos in ilo tempore, na atemporalidade dos mitos.

Só assim a catarse ocorre. Não é longo demais, é o tempo certo. E têm coisas que não devemos apressar. Não é um processo apenas narrativo, ou intelectual: é total. Como ir a um terreiro de umbanda. Como sexo. O coro é o que cria esse invólucro, essa bolha, e nos mantém ali, caóticos e coesos, naquele universo. A meu companheiro daquela noite, seja ele quem for, costumo dizer também que o mais difícil das peças do Oficina é chegar ao fim delas. Lidar com o sentimento de orfandade após os aplausos. Os atores sabem como é isso, sabem lidar com isso. Com um público que se recusa a partir, que se apega à suspensão teatral, que não quer voltar a ser abóbora. Há quem precise de toda a madrugada para voltar ao “normal”; outros, bem mais que isso. E alguns poucos, como eu, não retornam mais.

Tal como uma tragédia, o Oficina apareceu na minha vida de forma incontornável; me levou consigo e não deixa espaço pra remorso ou encanação. Sem drama. Fui atravessada por tantas vidas, vivi tantas mortes ali; não há como me separar disso. É o aprendizado que tirei dessa tragédia: o de que agora já não sei mais como era o mundo, como era eu, antes de frequentar o Oficina. Antes de viver e morrer ali. Não sei a quem, nem sei como, mas sinto que devo agradecer a alguém por isso. A gratidão que sinto me sufoca. O Zé não aceitaria esse agradecimento. No Oficina, não há estrelas nem protagonistas. Então, de tempos em tempos, encharcada de gratidão, transbordo desse sentimento. O que o Oficina faz é criar e partilhar amor, muito amor. E eu repasso-o como posso. Convido amigos a viverem comigo esses ritos – um virgem ou não de Oficina. Espalho a boa nova. E meu sentimento de gratidão vira criação. Como nesse texto. Já sem saber o que fazer com ele, pus-me a escrever.

O Oficina é um romance, dos bons, dos longos. É uma tragédia em um filme que poderia ser dirigido por David Lynch. É tudo isso junto e misturado com o que você leva pra lá consigo. Cada público compõe a receita a sua maneira. E há dias, juro, em que o tempo ali dentro para. Nesses dias, habitamos o tempo mítico. Dá pra sentir a presença do divino. E diante dele, somos todos cabras.

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
(João Guimarães Rosa)

339451_309928375770683_1284446131_oFoto: divulgação Teatro Oficina

35 horas em Abu Dhabi

Até que aconteça com você, é difícil entender a frustração envolvida na perda de um voo. Sentimentos confusos afloram, simultaneamente. Desespero. Vergonha. Raiva. Arrependimento. Resignação. Cansaço. Pressa. O mais certo é que ver o avião, no qual você deveria estar, decolar na sua frente, com você fora dele, se compara à experiência de ser esquecida na escola. Você vê todos os coleguinhas indo embora com seus pais. Merendeiras vazias, uniformes sujos e uma criança feliz que volta pra casa. Menos você. E à maneira de uma criança, você tem vontade de bater em alguém, de chorar porque ficou sozinha e de se esconder de vergonha e embaraço diante das pessoas que estão ao redor vendo todas as emoções transparentes por suas expressões e gestos.

Correr foi minha primeira e única reação. Corri um terminal e meio até o guichê da Etihad Airways. Corri como se o avião pudesse fazer meia volta pra me buscar. Cheguei suada e arfante para pedir assistência, mas o funcionário da companhia me olhou sem qualquer traço de compaixão. Disse, sem cerimônia ou carinho, que só haveria outro voo de Abu Dhabi pra São Paulo na manhã seguinte, ou seja, 24 horas depois. “Só existe um voo desses por dia, senhora”, ele me informou com o rosto inexpressivo. Levantou-se para verificar com outro funcionário a possibilidade de emitirem outro cartão de embarque pra mim. Os dois me olhavam, de soslaio, como fazia a diretora do jardim de infância quando eu comia areia do parquinho: um misto de recriminação com pena. Me vi sozinha no balcão, derrotada, e fiz o que qualquer adulto exausto teria feito em meu lugar: chorei. Chorei ali em pé, sozinha, sem superego. O funcionário retornou com um cartão de embarque e permaneceu inabalável diante de minhas lágrimas incontidas e balbúrdias indecifráveis. Me passou o novo cartão de embarque. “E minhas malas?”, perguntei quase me desculpando. “Elas foram retiradas. Estão aqui no aeroporto e serão transferidas pro voo de amanhã”.

Eu havia chegado no Aeroporto Internacional de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes, na noite anterior num voo vindo de Kathmandu, Nepal. Chegara na madrugada de 24 para 25 de dezembro. Conforme feito na ida, reservei uma vaga nos sleeping pods, um serviço oferecido por uma empresa pra tornar menos desconfortável a estadia dos passageiros com longas conexões nos halls do aeroporto. Só existe um hotel (caro) dentro do aeroporto, e muitos passaportes requerem visto para sair. O passaporte brasileiro é um deles. Tratando-se de uma noite – tanto na ida quanto na volta –, optei pelas cápsulas do sono. Mais barato, mais simples e menos confortável, mas ainda assim muito superior a uma cadeira ou ao chão.

As cápsulas têm um aspecto de câmara de criogenia de um filme de ficção científica. Você deixa sua bolsa de mão embaixo do estofado e já entra deitando. Uma tampa de escotilha escorrega da sua cabeça até seus pés, fechando o casulo. Ali dentro têm tomadas pra carregar celulares e computadores e só. As cerca de 30 cápsulas ficam todas numa salinha refrigerada, perto do desembarque, e os passageiros entram e saem em alternância para desfrutarem de suas horas pagas para horizontalizar o corpo. Uma funcionária fica com seu cartão de embarque, na entrada da sala, e te chama com antecedência para que você levante e chegue a tempo do seu voo.

“Estou uma hora atrasada, meu voo demorou. Mas eu paguei por 8 horas”, me expliquei com a atendente que me recebeu na véspera de Natal, quando cheguei em Abu Dhabi. Já era madrugada. O aeroporto estava vazio e sonolento. Eu já tinha pagado, mas estava perdendo uma hora de sono/dinheiro. “Não tem problema, porque seu voo amanhã para São Paulo foi adiado em uma hora também, então você pode dormir mais. Vai dar na mesma”, me disse a funcionária e porteira do sono. Agradeci e fui dormir. Dentro do casulo, tomei metade de outra cápsula de sono – um dramin – e num piscar de olhos já era manhã. Saí sem pressa pra tomar um café. Eu estava com tempo, então me direcionei com calma ao portão 34. Era a hora exata marcada para o início do embarque, ou seja, uma hora antes da decolagem, mas encontrei todas as cadeiras em frente ao portão vazias. Achei estranho. Um homem pequeno aspirava o carpete. Na pequena tela, havia um voo para Seul anunciado. Um cubo de gelo desceu pela minha coluna. Perguntei ao funcionário de terno se o voo pra São Paulo havia mudado de portão. Ele me olhou em silêncio. Sem pena nem crueldade. Apenas virou-se pra janela e com o dedo indicador em riste apontou, lá fora. Um avião estava na pista. O sol cegava. “Aquele é o voo para São Paulo”, disse, e voltou à contagem de cartões de embarque em suas mãos. Senti a vida escorrer de mim pelo suor nas palmas da minhas mãos. Engoli todas as palavras que não tinham a quem serem ditas. E corri.

Vencida, voltei ao local onde meus problemas haviam começado. Deixei o guichê da Etihad e decidi descarregar toda minha frustração natalina nos mercadores do sono. A atendente das cápsulas não era a mesma que havia falhado em me acordar na hora certa aquela manhã, mas tomei a parte pelo todo e transformei a vida dela num inferno nas duas horas subsequentes. Ninguém queria assumir responsabilidade pelo erro, todo mundo tem medo de perder o emprego. E eu entendi. No íntimo, até me solidarizei. Não sei de sua história, de como ela foi parar ali, do que estava em jogo. Então ligamos – por insistência e obtusidade minha – para o proprietário, que passava seu Natal, feliz e contente, em família, lá na Alemanha. Fiz um jogo sujo. Menos por estratégia que por fraqueza. Eu já não conseguia mais parar de chorar. Tinha chegado àquele ponto em que as lágrimas contidas do passado pegam carona na abertura das portas lacrimais do presente e deixam a boiada toda passar. Além disso, eu não tinha pressa. Tinha 24 horas de ociosidade pela frente. Brigar com o alemão por telefone era parte da distração. E também, eu precisava de algum senso de justiça. Consegui, ao menos, não pagar nada por minha detenção involuntária no Oriente Médio: o alemão assumiu todos os meus custos em Abu Dhabi (cápsulas do sono ilimitadas pra mim, o dia todo, e vouchers de alimentação). Não era muito. Mas em meu torpor provocado pela clausura em ares refrigerados, entendi que havia ganho aquela batalha. Cada um tem seus delírios e eu me apeguei ao meu.

No total, foram 35 horas dentro do aeroporto de Abu Dhabi. Cogitei um passeio, mas o visto custaria quase US$100 e demoraria horas pra ficar pronto. Fiz tudo que havia disponível para ser feito ali dentro sem gastar dinheiro. Fiz todas as refeições com os vouchers da Etihad. Passei em todas as lojas do duty free. Li. Ouvi todos os podcasts que estavam acumulados. Fiz longas caminhadas pelos três terminais do aeroporto a que tinha acesso. Tracei uma rota de ida e volta que demorava 40 minutos para ser cumprida. Completei quatro rotas durante a tarde.

Também tomei banho na ducha ao lado da mesquita. Confesso, com certa ostentação, que esse foi o melhor momento do dia. No meu kit de viajante aéreo nunca faltam: máscara e tampões de ouvido para dormir, música e fone, livro e calcinha. E naquela conjuntura, trocar de calcinha foi um novo batismo. O momento em que o herói veste o uniforme pela primeira vez e sabe o que fazer. Não sabia o que fazer com meu tempo livre, mas recobrei um pouquinho da minha dignidade e, assim, da minha identidade. Uma vez limpa, conversei com amigos no Skype. E também com tantos outros passageiros, sempre de passagem. Todos, eventualmente, partiam, menos eu. Passei então a colegar com os funcionários do aeroporto, acreditando, assim, aumentar minhas chances de entretenimento. Mas uma hora até eles iam embora.

Lá fora, um mundo de areia e sol, um deserto habitado e urbanizado. Ao longe avistava andaimes e guindastes, sinais de um país em obras e desenvolvimento. Aqui dentro, vivíamos a vida na colmeia, onde não há dia ou noite. Como os casinos de Las Vegas, sem relógios ou janelas, sem indícios do nascer e do por do sol. Em meus delírios lost in translation, ponderei que quando colonizarmos outros planetas onde o ar não for respirável, a colonização deixará nossas vidas como a de um terminal de aeroporto. Cantarolei Space Oddity, do Bowie, incontáveis vezes pra mim mesma enquanto passava pela décima vez pelo raio x. Ar condicionado, luz equilibrada em todos os ambientes, pessoas de todos os lugares do mundo, em trânsito, ninguém é dali. Nem os funcionários do aeroporto. Muitos africanos de diferentes fenótipos, mas também nepaleses e coreanos. Todos do mesmo planeta Terra, mas se estivéssemos em um dos episódios de Star Wars, cada um viria de uma constelação e de um sistema solar distinto.

Lá fora, eu sei pelo que leio, há trabalho escravo, condições indignas de vida e uma desigualdade social que deixa o Brasil bem na fita. Como Tatooine, o planeta deserto de Luke Skywalker. Do lado de dentro, um mundo fictício decorado com perfumes Dior, bolsas Chanel, óculos Ray Ban, echarpes Hermès e passageiros que só viajam de primeira classe. A desigualdade e a grande sacanagem internacional compactuada por todos nós. Mais conhecida que a peruca do Zacarias, que a perna mecânica do Roberto Carlos. Talvez eu estivesse muito sensibilizada pelo cansaço, pelo tédio, pela vontade de chegar em casa. Talvez fosse o número de horas respirando ar refrigerado. Talvez fosse o espírito do Natal, que veio e se foi antes que eu saísse do aeroporto. Um Natal em terras árabes, rodeada de imigrantes budistas.

Na manhã seguinte, prestes a embarcar, recebo uma mensagem de Karim, o jovem funcionário marroquino que na noite anterior havia me ajudado a encontrar a ducha. Ele voltara pra casa e pela manhã já estava de volta ao aeroporto pro novo turno. “Seu voo sai do portão 4. Não perca esse!”. Cansada demais pra euforia, me vi apenas aliviada diante da perspectiva de passar 15 horas num avião até São Paulo. Na fila de embarque, conversei com uns brasileiros. Eles falavam mal do aeroporto de Abu Dhabi, menos chique que o de Dubai. Assunto chato; deixei-os rapidamente. Afinal, eles eram entusiastas da tal sacanagem internacional sobre a qual eu delirava horas antes.

No longo, longo retorno até minha casa na Vila Madalena, ainda tive um voo tenebroso, com turbulências fortíssimas e duradouras. Com uma espécie de intoxicação alimentar, vomitei duas vezes durante a travessia, pra surpresa e desgosto meu e do meu belo companheiro de poltrona, um italiano chamado Cláudio. Cheguei em casa exausta, com apenas uma troca de calcinha e sem a menor noção de espaço-tempo. Ainda era de dia em São Paulo, culpa do relógio que andou pra trás e do horário de verão, mas eu havia saído do meu hotel, em Kathmandu, três dias atrás. Naquela noite, dormi na minha cama e na manhã seguinte peguei um ônibus pra uma viagem do dia todo até minha terrinha, em Minas, dois dias depois do fim do Natal.

Ingenuamente, pensei ser o fim da aventura. Mas a verdadeira corrida com obstáculos apenas começava. A maratona de vida e morte, de amor e tristeza, de perdas e ganhos, de muita carência de sono. Por sorte, coincidência ou destino, eu acabara de retornar de Nepal. Toda a tranquilidade pós-férias que meu semblante esbanjava no dia em que deixei os Himalaias estava em algum lugar dentro de mim, me dando suporte. Eu não via, mas sentia. Não tinha mais as marcas vermelhas na testa, nem o cheiro de incenso, mas as águas do meu oceano interno eram calmas quando ao meu redor as ondas eram dantescas. Segundo aprendi lá, ninguém vai parar aos pés de Boudhanath Stupa, o maior templo budista fora do Tibete, por acaso.

Pensei em outras viagens, poderosas, que terminaram com provações bem concretas. A greve dos controladores aéreos quando terminei o Caminho de Santiago de Compostela me veio à memória, seguida do retorno ao Brasil em meio às manifestações de junho de 2013. A impotência diante de uma situação pode ser concomitante ao poder de escolha que temos de ajustar a visão e de enxergar os pepinos como golpes de fortuna. Quem já foi esquecido na escola quando criança sabe do que eu estou falando. Afinal, ninguém sabe muito bem o que está fazendo. A gente inventa enquanto vai vivendo. E talvez essa tenha sido a força que me levou e me trouxe de volta do Nepal.

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Boudhanath Stupa, Kathmandu, Nepal (dezembro 2014)                            Photo by Maria Bitarello