Só a tragédia salva

Toda vez que levo alguém ao Teatro Oficina pela primeira vez, decido falar um pouco sobre a diferença entre o drama e a tragédia. Teatro – no Brasil, no Ocidente, hoje e já há muitos e muitos séculos – é, quase sempre, drama. Assumo que, de partida, é isso que minha companhia daquela noite espera do espetáculo: palco, cortina, palmas e uma historinha. O drama deixou-nos – o público – mal-acostumados com essa estrutura de historinhas e avessos ao simbolismo. No cinema é a mesma coisa. Quando esses elementos narrativos lineares não estão presentes, menos pessoas têm energia pra acompanhar. Ali, na porta do Teatro Oficina, então, no coração de São Paulo, proponho uma possível interpretação ao iniciante: “Pense que estamos entrando em um filme do David Lynch”. É um alerta, uma proposta, um convite.

Embora não seja bem isso também. O Oficina mantém viva a tradição da tragédia grega, no Bairro do Bixiga, graças à dedicação incansável de pessoas apaixonadas pelo que fazem. Ali, somos convidados ao Olimpo, a comungar com os deuses. Oficina é tragédia, é rito. E a por vezes temida participação do público nas peças do grupo não se dá apenas pelo risco (ou pela sorte) de algum(a) ator/atriz te levar pro meio da cena. Nós, o público, não somos plateia. Somos o coro. Somos multidão. Nesse ponto residia uma das birras do Nietzsche com o drama, e ele a esmiuçou em seu O nascimento da tragédia (1872). Essa separação – atores vs. público – nos tirou de cena. Nos transformou em plateia. Algo bem parecido acontece diante da TV: somos espectadores, telespectadores. Essa mudança vetorial aplicada pelos romanos matou a catarse que a tragédia grega proporcionava. A experiência coletiva e espiritual que acontece num espetáculo. A vida e os afetos que são, ambos, premissas e objetivos da arte. Na tragédia, as metáforas e alegorias são reais, muito reais. Não há atuação; há encenação. E como num filme do Lynch, não somos passivos. O texto exige nossa entrega.

O Oficina volta aos clássicos e recheia-os de referências contemporâneas. Platão, Sócrates, Eurípedes, Sófocles. Esses não envelhecem. As pulsões humanas permanecem irrespondidas, daí a importância de manter a pergunta no ar. E Zé Celso, diretor e criador do Oficina, não nos deixa esquecê-las. Quem ali vai, regularmente, como eu, tenta não se deixar devorar pela loucura cotidiana e se propõe a visitar deuses e demônios interiores. Parece assustador, mas liberta mais do que apavora. Pela catarse, expurgamos e purificamos os sentimentos. Re-significando-os. Devorando-os. Como? Damos as mãos aos ditirambos de Dionísio, adentramos a orgia. Ali, temos licença poética para existir em essência carnal. Mais corpo do que mente. Dionísio é o deus-espelho que nos revela o outro lado do véu; nos leva à aceitação. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, é como fraseia Nietzsche naquele mesmo livro de 1872. E eu concordo.

Ali no teatro, a experiência se renova a cada vez. Não sei explicar. Todas as vezes, de novo e de novo, recebo um sopro de sanidade ali dentro. As coisas fazem sentido; passam a fazer mais sentido. Há quem diga que lá só tem maluco, e embora acusações de loucura, pra mim, sejam medalhas no peito de quem as recebe, o que de mais lúcido experimento na minha semana, no meu mês, é minha ida regular ao Teatro Oficina. Não tem nada de insano e aleatório. Na real, é um privilégio morar na cidade-sede do Oficina; ser contemporânea do Zé, para vê-lo em cena; entrar no mundo que eles criam pra nós, montagem após montagem, um passaporte rumo a uma viagem que eu não costumo fazer sozinha. Preciso dos meus parceiros da multidão, do vinho, do ebó, do coro, da catarse.

A duração das montagens às vezes assusta e afasta. Você tem que chegar lá no fim da tarde pra ver a peça e só vai sair perto da meia-noite. As durações variam. Duas, três, quatro, seis horas. Existem as peças mais curtas também, mas ando desconfiada de que essas não permitem a imersão completa e irresistível que as mais duradouras nos proporcionam, sem esforço. É como ler um romance vs. ler um conto. Têm textos, obras, cujo poder reside em nos acompanhar através do tempo. Ao contrário de um texto curto, o romance nos faz companhia durante uma jornada. Dias, semanas, meses. É uma forma de arte que nos permite mudar entre o início e o fim de sua fruição. De forma semelhante, as peças de longa duração do Oficina precisam de tudo o que ocorre ali, e nós, o público, precisamos daquele tempo para imergir e desligar-nos de verdade da vida aqui de fora. É somente após passadas algumas horas que entramos in ilo tempore, na atemporalidade dos mitos.

Só assim a catarse ocorre. Não é longo demais, é o tempo certo. E têm coisas que não devemos apressar. Não é um processo apenas narrativo, ou intelectual: é total. Como ir a um terreiro de umbanda. Como sexo. O coro é o que cria esse invólucro, essa bolha, e nos mantém ali, caóticos e coesos, naquele universo. A meu companheiro daquela noite, seja ele quem for, costumo dizer também que o mais difícil das peças do Oficina é chegar ao fim delas. Lidar com o sentimento de orfandade após os aplausos. Os atores sabem como é isso, sabem lidar com isso. Com um público que se recusa a partir, que se apega à suspensão teatral, que não quer voltar a ser abóbora. Há quem precise de toda a madrugada para voltar ao “normal”; outros, bem mais que isso. E alguns poucos, como eu, não retornam mais.

Tal como uma tragédia, o Oficina apareceu na minha vida de forma incontornável; me levou consigo e não deixa espaço pra remorso ou encanação. Sem drama. Fui atravessada por tantas vidas, vivi tantas mortes ali; não há como me separar disso. É o aprendizado que tirei dessa tragédia: o de que agora já não sei mais como era o mundo, como era eu, antes de frequentar o Oficina. Antes de viver e morrer ali. Não sei a quem, nem sei como, mas sinto que devo agradecer a alguém por isso. A gratidão que sinto me sufoca. O Zé não aceitaria esse agradecimento. No Oficina, não há estrelas nem protagonistas. Então, de tempos em tempos, encharcada de gratidão, transbordo desse sentimento. O que o Oficina faz é criar e partilhar amor, muito amor. E eu repasso-o como posso. Convido amigos a viverem comigo esses ritos – um virgem ou não de Oficina. Espalho a boa nova. E meu sentimento de gratidão vira criação. Como nesse texto. Já sem saber o que fazer com ele, pus-me a escrever.

O Oficina é um romance, dos bons, dos longos. É uma tragédia em um filme que poderia ser dirigido por David Lynch. É tudo isso junto e misturado com o que você leva pra lá consigo. Cada público compõe a receita a sua maneira. E há dias, juro, em que o tempo ali dentro para. Nesses dias, habitamos o tempo mítico. Dá pra sentir a presença do divino. E diante dele, somos todos cabras.

Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.
(João Guimarães Rosa)

339451_309928375770683_1284446131_oFoto: divulgação Teatro Oficina

Arnaldo e Rita

 

 

 

 

Já faz uns anos, tive um sonho com a Rita Lee. Minha memória de sonhos é ruim, e só tenho fragmentos. Mas recordo-me de encontrar a cantora na fila de um banheiro, em 1963, num show de Jorge Benjor. Era o lançamento do “Samba Esquema Novo”. Ela ainda era loirinha, sardenta, menina. Eu a reconhecia e me precipitava em sua direção. Não me lembro se ela me conhecia ou não, acho que não. Eu lhe disse, na fila do banheiro, que embora ainda não soubesse, ela seria integrante de uma das bandas mais importantes e incríveis do mundo, ao menos do meu. Que eles tocariam em toda parte, que eles revolucionariam o rock nacional e que dali a alguns anos eles gravariam a música que o Jorge Benjor estava tocando lá fora: “Minha menina”. O álbum de ‘63 é o meu favorito do cantor. E a primeira fase d’Os Mutantes, de 1967, com Ritinha de noivinha, é sem dúvida a que eu acho melhor.

 

Fim de ano me lembrei deles. A Rita faz aniversário dia 31 de dezembro. E nesse mesmo dia, no ano de 1982, Arnaldo Baptista, seu ex-marido e ex-parceiro musical, tentou acabar com a própria vida, sem sucesso. Eu tinha um mês de vida, e nos cruzamos no meio do caminho. Foi um começo para nós dois.

 

Arnaldo teve uma sobrevivência miraculosa. Um momento em que vida não só falou mais alto; ela gritou. Foi uma aposta. E ele foi parar em Juiz de Fora uns anos depois do incidente. Ele e sua “menina”, Lucinha Barbosa, sua companheira há 30 anos. E lá, em minha cidade natal, o velho mutante é figura não raro avistada. No cinema. Em exposições. Caminhando em parques. Vive num sítio perto da casa da minha mãe. Seus quadros são expostos na cidade; suas camisetas, pintadas à mão, vendidas localmente. Eu hoje vivo na cidade natal do Arnaldo, São Paulo, mas só o vejo na terrinha mineira. Nosso ponto de encontro habitual é a praça do bairro, onde nós dois temos uma preferência por caminhar. Ele e sua menina estão sempre lá, sempre juntos. Às vezes nos falamos, nós três.

 

Em 2007, o vi em cena pela primeira e última vez. Foi no show d’Os Mutantes, no Rio, que cobri para o jornal local no qual trabalhava na época. Da plateia, um coro de dez ou vinte de nós, mineiros, gritava “graminha, graminha, graminha”, que não é um viva à maconha, mas o nome do bairro onde ele reside em Juiz de Fora. Ele sorriu como criança. E nós também. Tive a oportunidade de entrevistá-lo, tiramos fotos juntos. Ganhei uma camiseta.

 

Fantasio que meu sonho foi uma forma de intervenção no curso dos acontecimentos. Se eu não tivesse contado à Rita – na fila daquele banheiro onírico, 19 anos antes do meu nascimento – que eles gravariam “Minha menina”, do Benjor, será que eles teriam ainda assim gravado a canção? Será que nos anos 2000 minha banda mineira, duplodeck, faria um cover dessa música – cover, por sua vez, inspirado pela apresentação do Belle and Sebastian no extinto Free Jazz Festival, de 2001, já que a banda escocesa também fez sua versão da baladinha distorcida? Será que o Arnaldo chamaria a Lucinha de “minha menina”, como o faz, carinhosamente? Será? Menina ou não menina? Eis a questão. Por que será que foi esse meu único comentário feito à Rita Lee na fila daquele banheiro sessentista? Não tenho as respostas.

 

Se Arnaldo não tivesse quase morrido em 1982, quando eu nasci, talvez ele já não estivesse mais entre nós. Sua quase morte foi um recomeço. Quando penso no Arnaldo e na Rita, nesse amor e nessa arte – e também na dor e na ruptura –, quem me vem à mente é Lucinha. A menina. Talvez a mesma da música do Benjor.

 

Talvez fosse ela a menina do sonho sobre a qual eu falava à Rita no banheiro do show.

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Arnaldo Baptista e Maria Bitarello @ vernissage no Janelas Verdes, Juiz de Fora-MG, Brasil – janeiro de 2006

Independência ou Morse?

Não sou muito ligada em datas comemorativas. E sou particularmente desinteressada por celebrações de 7 de setembro. Não me lembro nunca de ter assistido a uma parada militar. Vai ver me falta uma relação afetiva com os feriados, pois o único do qual me lembro vividamente é o 7 de setembro de 2001, em Washington D.C. As universidades federais brasileiras estavam em greve e eu, no segundo período de jornalismo, decidi tirar um período sabático para visitar minha mãe nos Estados Unidos. O imperativo maior, contudo, foi o Morse. Por causa dele, passamos o 11 de setembro na capital. Eu e minha irmã, que ainda estava no colégio. E, graças a ela, seis meses atrás, conheci Matthew Shirts.

Naquele Dia da Independência, amigos e familiares de Richard M. Morse se reuniram na universidade e depois em sua antiga residência para celebrar sua vida e obra. O ilustre professor e mestre havia falecido em abril daquele mesmo ano, deixando saudades. Morse foi orientador de doutorado e grande mentor intelectual da minha mãe. Era um respeitado brasilianista: um gringo que estuda o Brasil. Escreveu, dentre outros assuntos, sobre a cidade de São Paulo, que hoje chamo de lar. Era amigo de uma turminha fascinante: Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Octavio Paz, para citar os indiscutíveis. E, em 1992, persuadiu, sem grandes esforços, minha mãe a pesquisar a América sob sua tutela.

Essa é a história de como nós três – eu, minha mãe e minha irmã – fomos para D.C. pela primeira vez. E passados quase 20 anos desde aquela viagem e 11 de sua partida, as piadas do professor ainda recheiam nossas conversas mais animadas, um de seus manuscritos originais repousa no escritório da minha mãe em Minas e a “máfia do Morse” segue ativa.

A expressão não é minha, é do meu chefe. “Quem é esse cara?”, foi o que perguntei, anos atrás, apontando o nome dele no verso de uma caneca misteriosa que residia no armário da cozinha da minha casa. “Um amigo do Morse, que mora aqui no Brasil. Ele me pediu pra entregar a caneca, mas nunca encontrei com o Matthew. Ele mora em São Paulo”, minha mãe respondeu. A caneca foi ficando; certa vez caiu no chão e não quebrou. Até que foi a vez da minha irmã aparecer com o desdobramento da pergunta. “Mãe, você conhece o Matthew Shirts?”, ela perguntou olhando a mesma caneca. “Vi ele uma vez só”. “Mãe, ele é o editor-chefe da National Geographic Brasil!”

É claro que ela sabia quem era o cara da caneca. Minha irmã começou a ler cedo, e lia muito. Sua biblioteca da primeira infância era composta de revistas da Turma da Mônica, relíquias hoje empoeiradas em caixas de leite. O passo seguinte foram as revistas National Geographic – algumas datando da época em que ainda se chamava Geográfica Universal, da coleção do meu avô. As linhas amarelas que emolduram a capa formavam um portal para o futuro fantástico em que ela faria descobertas fósseis na África e usaria roupas cáqui em acampamentos científicos. Porque, pra ela, não era só uma revista, era um sonho. O sonho de se tornar paleontóloga, uma cientista.

Quando me mudei para São Paulo, o Matthew foi a primeira pessoa que procurei. Porque aquela caneca pedia fechamento, ou quem sabe continuidade. “Tenho algo que te pertence”, eu disse a ele sorrindo, “e acredito que temos um amigo em comum.” Dois dias depois, ele me ofereceu trabalho. Aceitei. E agora o vejo todos os dias na redação. Ele e a caneca, que descansa em sua mesa.  A “máfia do Morse” é coisa dele. E no final de junho, nós, mafiosos, jantamos juntos na Vila Madalena.

Eu não sonhava em ser cientista como minha irmã, mas me deliciava com histórias. Com as narrativas que os encontros contam; os pontos invisíveis que ligam episódios. Porque como disse Proust, “cada memória é inseparável do momento em que é recordada”. Sem Morse, eu não lembraria de nenhum 7 de setembro. Sem minha irmã, não conheceria Matthew. E sem eles, a caneca branca não daria uma história.

Outono em Capitol Hill, Washington D.C., Estados Unidos, by Maria Bitarello

Entregar-se para vencer

O barulho da chave na porta me tira atenção do livro e levanto o olhar justo quando ele entra na sala com a mala e a mochila de equipamento. Deixo o livro aberto na página 47 pra não perder o ponto da leitura, ao lado da minha própria mala ainda jogada no chão, e ele atravessa a sala aflito, uma mão ao peito. Com algumas horas de diferença, chegamos ambos da Rio+20, a Conferência da Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que acabou na noite anterior. Só que ele acabou de perceber que esqueceu seus HDs, sua vida e obra, no banco de trás do táxi que o trouxe do Aeroporto de Congonhas até em casa.

Mas tudo bem. Muita calma. Vamos lá. Temos um recibo: R$ 34, uma rubrica e uma placa. A letra do meio está ilegível, mas o número é com certeza 3985. Será que é um Y, um Z ou um T? Acho que é um Y. Vamos com o Y. No computador, descobrimos que Congonhas tem duas frotas de táxi, e cada uma tem mais de 600 placas. A placa que temos em mãos, inacreditavelmente, não está filiada a nenhuma das duas. Inércia compulsória – o que fazer, afinal? Aleatoriamente tentamos algumas palavras chave no google. Ligo pra uma amiga taxista que sugere a Prefeitura de São Paulo: 156. Ali me informam que o Sindicato dos Taxistas tem registro de todos os veículos e motoristas em circulação na cidade. “Mas a senhora só vai conseguir falar lá na segunda pela manhã”, me diz a voz do outro lado da linha.

Não dá pra esperar. São 18h de sábado. Saímos então em busca de um milagre. Calço uma bota por cima da calça de ginástica, descabelada e desacreditada, e voltamos ao mesmo ponto onde tudo começou. Congonhas. No guichê da companhia e após alguma insistência, uma revelação: o motorista é o Dimas e o táxi é um Meriva. Outra placa. Nada a ver com a que temos. “Outra placa?”, pergunto de forma retórica. “É, e o telefone dele mudou”, responde o funcionário. “Mas então como sabemos que é ele?”.

Enquanto eu corria pra cima e pra baixo do lado de fora rastreando uma placa errada, eles olharam as imagens de segurança da câmera do ponto. Calcularam a hora de partida, voltaram o vídeo até verem meu companheiro entrando no carro. Com a nova placa memorizada, retomo minha aeróbica térmica na noite fria pela calçada dos taxistas, buscando o Meriva e o Dimas até ambos aparecerem.

Jovem e com cara de gente boa, bem-vestido, o Dimas abre o carro pra gente e já avisa que não encontrou nada. “Eu nem olhei aí pra trás depois que você desceu”, ele diz, dirigindo-se a meu companheiro. Em vão, nossos olhos buscam os recôncavos do carro, embaixo do tapete, entre o assento e o encosto do banco, no porta-malas, sob banco da frente. Não estão ali, mas parar de olhar é pior. “Você pode nos dizer onde levou o último passageiro?” “Posso”, responde com calma, “foi no Mercure Hotel do Brooklin, ali perto da Berrini. Tô aqui com o boleto deles, tem o endereço. Acho que eles eram indianos.”

Eles? Sim. Um grupo de 21 indianos chegou ao aeroporto pouco depois do meu companheiro e solicitou o serviço de vários táxis, “uns cinco”, para levar todos eles ao hotel. O Dimas acha que eles eram indianos e sabe que não falavam português, só um no carro dele falava inglês. Voltamos ao balcão interno da companhia de táxis pra verificar, mais uma vez, a filmagem de segurança. Achamos o momento em que dois deles chegam pra comprar os boletos. Congelamos a imagem e tiro uma foto com o celular, pra reconhecê-los no hotel. O Dimas vai junto, “pro caso de os caras não acreditarem na gente”, foi o que ele disse.

No Mercure, a recepcionista desmotivada chama um dos integrantes do grupo, alguém que fale inglês. A jovem com piercing no nariz que surge é solícita, gentil e chama o rapaz da foto do celular, aquele que comprou o boleto. Em hindi ela fala ao telefone e o rapaz desce à recepção. Mostro a ele também a foto do celular em que ele próprio aparece, ao lado de um senhor. “Ele disse”, aponto para o Dimas, sentado no sofá, “que o outro homem na foto estava no táxi dele”. Todo arregalado, o rapaz me pede para esperar enquanto volta ao andar dos quartos para saber se alguém entre os demais 19 membros do grupo encontrou os HDs.

Passados mais alguns minutos desce o outro homem da foto, o senhor que falava inglês. Soltamos um “Ahh” uníssono e aliviado quando avistamos a bolsinha com os HDs em suas mãos. Salto do sofá da recepção e tenho vontade de abraçá-lo, mas pressinto o desconforto e me detenho. “Pensei que vocês fossem da polícia quando vi a foto no celular”, confessa o mais jovem. Me desculpo pelo mal-entendido e ofereço uma cerveja brasileira e amiga. Polidos e assertivos, eles recusam. Não bebem. Ainda bem que não tentei abraçá-los quando tive o impulso e me poupei de mais um desrespeito cultural prestes a ser cometido. A cerveja já era, já foi.

O clima entre nós é muito amistoso. Cordial. O indiano mais velho é advogado e, com o restante do grupo, acaba de chegar do Rio de Janeiro, da conferência da ONU, onde participou junto a uma ONG. “Nós também voltamos de lá agora”, contamos. Cuidadoso, ele faz perguntas, aqui e acolá, para ver se somos, de fato, os proprietários daqueles pedaços de plástico fabricados na China e que, não fosse pelo que contêm, teriam pouco valor. Tiramos fotos juntos. Trocamos e-mails, agradecimentos e falamos de comida indiana, uma grande favorita aqui em casa. Oferecemos nossa ajuda para o que precisarem em São Paulo e eles oferecem suas casas na Índia, “país que devemos conhecer”. Não é a primeira vez que ouvimos isso.

Já em casa e instalada após três horas de adrenalina, investigação e perseguição, volto ao livro aberto sobre o sofá da sala. “Shantaram”, de Gregory David Roberts, é autobiográfico e conta uma série de episódios na vida deste homem que, no início da história, foge da Austrália, onde foi condenado a 20 anos de prisão, e chega a Bombaim, na Índia. Na página entreaberta desde cedo, lê-se: “Sometimes, in India, you have to surrender before you win” ( Às vezes, na Índia, você tem que se entregar antes de vencer).
Contamos nossa aventura a um amigo americano de visita em São Paulo e ele disse que “só no Brasil mesmo. Isso nunca aconteceria em Nova York. Ninguém faria isso!”

Vai saber… Meu companheiro atribui o desfecho positivo à Índia, não ao Brasil: “Quando o Dimas disse que eles eram indianos, sabia que estávamos com sorte.” O episódio até se passou em São Paulo, mas o que sentimos foi uma grande presença da amiga francesa, ausente desde 2009, e que nos ensinou que as pessoas da Índia são assim, abertas. Ela também achava que a Índia devia ser conhecida. “That is how they manage to live together, a billion of them, in reasonable peace”, li mais adiante no livro de Roberts.“They are not perfect, of course. They know how to fight and lie and cheat each other, and all the things that all of us do. But more than any other people in the world, the Indians know how to love one another” ( É assim que fazem para viver juntos, bilhões deles, em razoável paz. Eles não são perfeitos, é claro. Eles sabem brigar e mentir e roubar uns aos outros, e tudo o que todos nós fazemos. Mas mais que qualquer outro povo no mundo, os indianos sabem como amar uns aos outros). É, foi sorte mesmo.

Estação da Luz, São Paulo, by Maria Bitarello