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Summer Delight is a multimedia installation that dialogues with concepts of time, space, storytelling and randomness through still and moving images and sounds. Six flat screens display, in arbitrary order, a series of images at random time lapses. The text is divided in 16 pieces that are randomly narrated, through the central 5.1 channels sound system, interposed with moments of silence. Other four stereo sound systems are disposed in the same occupied space, playing the background sounds (internal and external), creating an immersive atmosphere for the narrative.

You can see here a linear video version of the installation and also the still frames and the text.

Summer Delight foi concebido como uma instalação multimídia de imersão, onde o diálogo entre tempo, espaço, movimento e aleatoriedade acentuam a experiência narrativa do espectador. Adaptado do conto “Don and Dean’s Summer Delight”, de Maria Bitarello, este trabalho pretende explorar os limites entre a narrativa literária e sua representação audiovisual. Em uma sala escura 6 telas planas dispostas na sala mostram, em ordem aleatória, uma serie de imagens de duração variada. O texto foi editado em 16 partes independentes que são narradas de forma randômicas através de um sistema de som central 5.1, intercalados com momentos de silencia. Outros 4 sistemas de som estéreo são instalados no mesmo espaço, tocando os sons ambientes e criando assim uma atmosfera imersiva para a narrativa.

O vídeo linear apresentado aqui é um dos desdobramentos desta pesquisa que busca as relações entre texto e imagem.

Project: Vinicius Berger
Story and Narration: Maria Bitarello
Assistant: Fábio Nascimento

Arnaldo e Rita

 

 

 

 

Já faz uns anos, tive um sonho com a Rita Lee. Minha memória de sonhos é ruim, e só tenho fragmentos. Mas recordo-me de encontrar a cantora na fila de um banheiro, em 1963, num show de Jorge Benjor. Era o lançamento do “Samba Esquema Novo”. Ela ainda era loirinha, sardenta, menina. Eu a reconhecia e me precipitava em sua direção. Não me lembro se ela me conhecia ou não, acho que não. Eu lhe disse, na fila do banheiro, que embora ainda não soubesse, ela seria integrante de uma das bandas mais importantes e incríveis do mundo, ao menos do meu. Que eles tocariam em toda parte, que eles revolucionariam o rock nacional e que dali a alguns anos eles gravariam a música que o Jorge Benjor estava tocando lá fora: “Minha menina”. O álbum de ‘63 é o meu favorito do cantor. E a primeira fase d’Os Mutantes, de 1967, com Ritinha de noivinha, é sem dúvida a que eu acho melhor.

 

Fim de ano me lembrei deles. A Rita faz aniversário dia 31 de dezembro. E nesse mesmo dia, no ano de 1982, Arnaldo Baptista, seu ex-marido e ex-parceiro musical, tentou acabar com a própria vida, sem sucesso. Eu tinha um mês de vida, e nos cruzamos no meio do caminho. Foi um começo para nós dois.

 

Arnaldo teve uma sobrevivência miraculosa. Um momento em que vida não só falou mais alto; ela gritou. Foi uma aposta. E ele foi parar em Juiz de Fora uns anos depois do incidente. Ele e sua “menina”, Lucinha Barbosa, sua companheira há 30 anos. E lá, em minha cidade natal, o velho mutante é figura não raro avistada. No cinema. Em exposições. Caminhando em parques. Vive num sítio perto da casa da minha mãe. Seus quadros são expostos na cidade; suas camisetas, pintadas à mão, vendidas localmente. Eu hoje vivo na cidade natal do Arnaldo, São Paulo, mas só o vejo na terrinha mineira. Nosso ponto de encontro habitual é a praça do bairro, onde nós dois temos uma preferência por caminhar. Ele e sua menina estão sempre lá, sempre juntos. Às vezes nos falamos, nós três.

 

Em 2007, o vi em cena pela primeira e última vez. Foi no show d’Os Mutantes, no Rio, que cobri para o jornal local no qual trabalhava na época. Da plateia, um coro de dez ou vinte de nós, mineiros, gritava “graminha, graminha, graminha”, que não é um viva à maconha, mas o nome do bairro onde ele reside em Juiz de Fora. Ele sorriu como criança. E nós também. Tive a oportunidade de entrevistá-lo, tiramos fotos juntos. Ganhei uma camiseta.

 

Fantasio que meu sonho foi uma forma de intervenção no curso dos acontecimentos. Se eu não tivesse contado à Rita – na fila daquele banheiro onírico, 19 anos antes do meu nascimento – que eles gravariam “Minha menina”, do Benjor, será que eles teriam ainda assim gravado a canção? Será que nos anos 2000 minha banda mineira, duplodeck, faria um cover dessa música – cover, por sua vez, inspirado pela apresentação do Belle and Sebastian no extinto Free Jazz Festival, de 2001, já que a banda escocesa também fez sua versão da baladinha distorcida? Será que o Arnaldo chamaria a Lucinha de “minha menina”, como o faz, carinhosamente? Será? Menina ou não menina? Eis a questão. Por que será que foi esse meu único comentário feito à Rita Lee na fila daquele banheiro sessentista? Não tenho as respostas.

 

Se Arnaldo não tivesse quase morrido em 1982, quando eu nasci, talvez ele já não estivesse mais entre nós. Sua quase morte foi um recomeço. Quando penso no Arnaldo e na Rita, nesse amor e nessa arte – e também na dor e na ruptura –, quem me vem à mente é Lucinha. A menina. Talvez a mesma da música do Benjor.

 

Talvez fosse ela a menina do sonho sobre a qual eu falava à Rita no banheiro do show.

Arnaldo 4

Arnaldo Baptista e Maria Bitarello @ vernissage no Janelas Verdes, Juiz de Fora-MG, Brasil – janeiro de 2006

Double snapshots

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Anahi @ Ibitipoca, MG, Brasil/2013

 

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Dad @ home, Juiz de Fora, MG, Brasil/2013

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Grandma’s @ Juiz de Fora, MG, Brasil/2013

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My old bedroom’s double view from window @ Juiz de Fora, MG, Brasil/2013

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Logo-Land @ Juiz de Fora, MG, Brasil/2013

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Concrete @ São Paulo, SP, Brasil/2013

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My garden @ Vila Madalena, São Paulo, SP, Brasil/2013

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Laura and Snacks @ Ibitipoca, MG, Brasil/2012

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Laura in Stripes @ Ibitipoca, MG, Brasil/2012

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Ghost horses @ Ibitipoca, MG, Brasil/2012

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Zuzu & Thi @ Pedro’s place, Rio de Janeiro, RJ, Brasil/2012

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Tcheco e Joca @ Rio de Janeiro, RJ, Brasil/2012

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Mercado Municipal/Estação da Luz @ São Paulo, SP, Brasil/2011

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Dutty and view @ Vila Madalena, São Paulo, SP, Brasil/2011

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Habib’s over Paraibuna @ Minas Gerais, Brasil/2011

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Vila Madalena, São Paulo, SP, Brasil/2011

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Artist over water @ Pont des Arts, Paris, France/2011

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Maria & Anahi @ Pont des Arts, Paris, France/2011

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Minas Gerais, Brasil/2011

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Minas Gerais, Brasil/2011

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Diaraye, Quai-de-Seine, Paris, France/2011

The kindness of strangers…

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Menina Vânia, Portugal @ O Porto, Portugal

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Café a Brazileira @ Braga, Portugal

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Rodrigo, Brasil @ Braga, Portugal

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Cândida, Portugal @ Goães, Portugal

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Moysés, Portugal @ Goães, Portugal

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Luis, Portugal @ Rubiães, Portugal

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Carlos, Portugal @ Cossourado, Portugal

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Rio Minho
Valença do Minho, Portugal / Tui, España

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Rio Minho
La frontera

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Gerry, England @ Tui, España

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Iryna, Ukraine @ Redondela, España

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Andy and Lauren, USA @ Redondela, España

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Diana, USA @ Pontevedra, España

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Christine and Maureen, England @ Pontevedra, España

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Campanário del Monasterio de Herbón, España

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Monasterio de Herbón, España

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Claustro del Monasterio de Herbón, España

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Vincent, France @ Monasterio de Herbón, España

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Vincent, France @ Monasterio de Herbón, España

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João, Portugal @ Monasterio de Herbón, España

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Paco, el hospitalero del Monasterio de Herbón, España

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Marja, Netherlands @ Padrón, España

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Antoine, Netherlands @ Padrón, España

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Maureen, England @ Pórtico del Perdón de Santiago de Compostela

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Christine, England @ Pórtico del Perdón de Santiago de Compostela

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Eládio, España @ Pórtico del Perdón de Santiago de Compostela

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La Basilica de Santiago de Compostela, España

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Me @ Santiago de Compostela, España

Photos taken on the Camiño de Santiago de Compostela, between Braga, Portugal, and Santiago, España, from june 2nd to june 11th 2013.

Thank you to everyone who let me photograph them.
Thank you to everyone I crossed paths with.
Thank you to all.

Thank you.

Incredible India

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MINING THE LIGHT
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MARKET AND PRAYER
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MYSTS
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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STORYTELLING
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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FORTIFIED CITY
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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SHORT-CIRCUITED PEARLS
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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CHORES
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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LASSI
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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PRAYER AND MISCHIEF
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MUSLIM-HINDU HENGE
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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HIGH-SCHOOL TELUGO
Laad Bazar, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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ADOLESCENCE
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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HITEC CITY
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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GURMIT, THE SIKH
Temple @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MOHAMMED
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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INDIAN MAN
Fort @ Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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THREE WHEELS
Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

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MUSLIM WALL
Golconda Fort, Hyderabad, Andhra Pradesh, India (2012)

Write at the top of the stairs

S&Co.

Window view of the Reading Room @ Shakespeare and Company Bookstore
Paris, France (2011)

Madonna e Niemeyer

Já ouvi dizer que pessoas em cargo de mais responsabilidade e confiança ou de maior projeção profissional tendem a viver mais. Que o trabalho por ser feito mantém as pessoas vivas por mais tempo. Que o compromisso tira o pé da cova. Faz sentido, suponho. E sempre pensei isso do velho Oscar. Esse sagitariano danado que no dia 15 teria completado 105 anos, uns 90 deles de tabagismo intenso e convicto. Penso num senso de dever, e talvez até de missão, que impulsiona pessoas como ele. E, ciente do risco de ser apedrejada em praça pública, proponho uma associação arriscada entre duas figuras icônicas: Madonna e Niemeyer.

Creio que Madonna também viverá uma vida longa e ativa. Que depois da turnê acústica que quem sabe virá mais pra frente, ela vai passar para outras formas de criação (apostaria no cinema), mas não parar. Porque parar, realmente, seria o fim. E acho que com ela, como com Oscar, é o fim que os detém, não o contrário. Sim, vaidade é fundamental. A humildade não te faz levantar todos os dias e seguir sendo Madonna ou Niemeyer. Daí o risco que vem embutido neste senso messiânico. Leva a abusos, delírios de grandeza. E, não raro, à loucura.

Anos atrás li uma matéria, na Folha se não me engano, em que vários arquitetos renomados falavam sobre o ofício. Um deles, não me lembro mais qual, disse que o sonho de todo e qualquer arquiteto é, uma vez na vida, produzir uma grande obra. Atingir o sublime. E que ser contemporâneo de Niemeyer tinha sua dose de dor e de delícia. A inspiração e a opressão de um gênio que fez de suas obras, todas elas, primas. E ser contemporânea de Madonna não tem, igualmente, um sabor agridoce? Cito o jornalista Rodrigo Levino: “Quem tiver acompanhado a vinda recente de toda a nova geração de cantoras pop ao Brasil (Britney Spears, Christina Aguilera, Rihanna, Lady Gaga, Katy Perry), não deixará de constatar o óbvio: no dia em que o trono de Madonna vagar, vago continuará.” Para quem não gosta dela, a americana deve ser um rochedo no sapato. Madonna não larga o osso. E se nem Cristo foi unanimidade, como se diz por aí, tampouco foi o simpático e comunista Niemeyer.

De um lado, ela. Dentre suas súditas praticantes – ou seja, todas as performers femininas que vieram depois dela –, quantas duraram? Seu pioneirismo é incontestável. E 30 anos de carreira, sem perder o penteado, não são para qualquer um. Tem que ter a cabeça no lugar. Olhe aí no passado e no presente. Grandes homens e mulheres em potencial. A maioria amarela no meio do jogo e não volta para o segundo tempo. Morrem, piram, não aguentam o rojão. E conta-se nos dedos de uma única mão quem atingiu uma carreira desta solidez. Quem tem, em todos os discos, pelo menos uma ou duas músicas que ficam. Com certeza os Rolling Stones são dessa pequena elite.

De outro lado, ele. Entre arquitetos e estudantes de arquitetura que conheço, encontro críticas, reprimendas, desgostos com suas curvas e blocos soviéticos. Um argumento que eu respeito e tento entender, mas que muitas vezes me parece mais uma justificativa racional – a política por trás daquela cidade de Brasília, linda e estranha – que uma reação visceral a uma obra. E como eu acredito que arquitetura é a forma de arte mais interessante de se ver e de maior impacto sobre nosso cotidiano, prefiro a via irracional.

As artes são um pouco como o olfato. Antes de você reconhecer o aroma no ar, ele já te provocou alguma reação. Atração, repulsa, familiaridade. A arquitetura chega até você a despeito de sua permissão e de sua vontade. Apesar da política. A música tem a mesma natureza no campo sonoro. E ainda bem que é assim. Desconfio que se você for a um show da Madonna aberto à experiência que ela tem a intenção de te proporcionar, se não ficar emburrado com o playback e não for buscando uma coisa preconcebida, você vai com certeza se divertir. Porque é o que é. Um espetáculo. Não é Ramones ou The Stooges. E dentro de sua proposta, ela é a melhor. Como Oscar.

Recentemente voltei a Brasília e o encantamento perdura. E no último dia 5 fui ao show dela no Estádio do Morumbi, em São Paulo. Aguardando o início sob chuva, recebi uma mensagem no celular. “Agora o mundo realmente acaba… Niemeyer morreu.” Soltei um “Ah” de lamento em voz alta e as luzes se apagaram, fãs urraram e o show, três horas atrasado, começou com o soar de sinos e o balançar de um incensário gigante. Monges ergueram-se no palco, uma catedral de espelhos estilhaçou-se e ela, à la madonna, desceu do confessionário.

Durante esse prelúdio sacro, pensei no Oscar. Fiz meu minuto de silêncio. Admirei a diligência. A abnegação de outra vida. A aceitação de uma escolha, ou até da falta dela. O toque do divino, ou não. O trabalho exaustivo. A vida pessoal prejudicada. O amor pelo ofício. A preocupação com seu público. Lembrei de tudo dele que eu conhecia, suas obras. Tudo isso que vale para Oscar, vale para Madonna. Os dois são farinha do mesmo saco. Inquietos. E, para mim, a abertura deste show da turnê MDNA foi o réquiem do arquiteto. Me achei com sorte. Dessa eu não me esqueço.

George Whitman

A primeira vez que ouvi falar da livraria Shakespeare and Company foi quando ganhei “Um livro por dia”, do canadense Jeremy Mercer. Minha irmã me mandou por correio, presente de Natal ou aniversário. Eu já tinha estado em Paris mais de uma vez, mas nunca soubera da existência da livraria até então. E foi exatamente na mesma época em que visitei, com minha irmã e pela primeira vez, a livraria City Lights, em São Francisco. Não sabia que se tratavam de livrarias irmãs. Que Lawrence Ferlinghetti, mecenas incontornável dos meus adorados beats e fundador da City Lights, havia sido hóspede da S&Co., de George Whitman.

Hoje, 14 de dezembro, faz um ano que George morreu. Está enterrado no Cemitério de Père Lachaise. E se estivesse vivo, teria completado 99 anos anteontem, no dia 12 de dezembro. Generoso, excêntrico, visionário, mal-humorado, rigoroso e amado, ele deixou um legado de pessoas, histórias, livros e inspiração. Em qualquer dia do ano, a qualquer hora do dia, dezenas de visitantes, turistas e admiradores rondam a livraria deste americano que se estabeleceu em Paris nos anos 1950 e por lá ficou. Muitos tiram fotos; alguns compram um exemplar carimbado com o selo legendário. Até roubam. Garotos de veludo cotelê aspirantes a dândi fazem cara de intelectuais entre as estantes e fumam cigarrinhos de enrolar no banco em frente. Bandas se apresentam na porta da livraria; festivais de literatura acontecem ali na calçada todos os verões e o estabelecimento empilhado de livros de forma desordenada abre todos os dias até às 23h. Os funcionários são todos tumbleweeds, escritores-residentes seminômades.

Devorei o livro de Mercer, que conta um pouco da história de fundação até o presente, e nesta época iniciei um novo ciclo de fantasias na minha vida. Poucas coisas são tão prazerosas como receber de presente um novo pacote de sonhos. É como se apaixonar por alguém. E eu passei a sonhar em morar entre as estantes empoeiradas da livraria. Virar a favorita de Whitman. Ler um livro por dia. E escrever dentro do cubículo do escritor, um pequeno compartimento com uma máquina de escrever, uma cadeira e um cinzeiro. Não me lembro exatamente da primeira vez em que fui à livraria, é curioso. Mas me lembro com nitidez do dia em que minha vida se ligou à dela.

Eu estava levando meu melhor amigo para conhecer aquele paraíso com cheiro de guardado. Era um dia curto e cinza de dezembro, perto do réveillon. Alguém tocava piano na sala de cima onde as camas, durante o dia, viram pousos para os leitores visitantes. Sobre a porta, o mote e epitáfio daquele templo nos recebia: “Be not inhospitable to strangers, lest they be angels in disguise” (“Não seja inóspito com estranhos sob pena de serem anjos disfarçados”, em tradução aproximada). E entre as paredes estreitas que afunilam-se dos lados da escada íngreme – entre anúncios de tradutores, redatores, apartamentos pra alugar, baby-sitters bilíngues e aulas de inglês – uma folha ofício pregada dizia “Ateliê de Escritores, todas as terças, às 19h, inscrições por email”. Arranquei a folha pra mim.

Frequentei o ateliê por quase dois anos. Todas as terças à noite. Perdi uma ou duas sessões apenas. Descia de bicicleta de casa até lá, mesmo no frio alfinetante de fevereiro. O grupo tinha sempre entre 10 e 15 pessoas, e uma inglesa (e hoje amiga) nos coordenava, mediando o bando de escritores. A maioria amadores; raros com publicações. Poucos, como eu, eram assíduos. Encadeavam um pacote de dois meses atrás do outro. A maioria vinha uma só vez. Muitos intercambistas, passantes, gente que estava ali só por uma temporada, curiosos e outros tantos perdidos. Paris está sempre repleta destes. O público da livraria, desavisado, subia regularmente ao quarto de estudos onde nos reuníamos, sem saber do que se tratava. Assistiam-nos, ouviam-nos.

Paredes de livros nos rodeavam em frente ao Sena, do chão torto ao teto baixo com vigas de madeira. A parede desnivelada. A janela fria voltada para a Catedral de Notre Dame, logo ali do outro lado do rio, gelada e sem vedação. O vento de inverno passava fininho e cortante pela fresta. Sempre me sentava ali, no parapeito desta janela, escrevendo sobre uma mesa cujo pé quebrado foi substituído por uma pilha de livros grossos e de capa dura. De um lado meu, um banco comprido onde quase dez pessoas se espremiam, pernas contra pernas, bloquinhos e canetas à mão. Na minha frente, outro banco, só que menor. E do meu outro lado, duas grandes poltronas na frente da porta que dá acesso ao corredor privado do prédio 37 rue de la Bûcherie.

Por ali acessava-se o quarto de George Whitman. Nunca o vi na livraria, mas sabia que estava do outro lado daquela porta. Certa vez usei o banheiro de seu aposento, mas ele não estava. E nos raros dias em que a livraria não estava aberta até tarde, subíamos por essa lateral. No interfone, lia-se “Whitman” ao lado de “Antiquarium”, o anexo da loja com obras raras e, à noite, suíte presidencial de um tumbleweed afortunado. Meu coração acelerava um pouquinho. Toda vez. Era a antecipação de cruzar com ele na escada. Mas nunca o vi lá. Já estava bem velhinho nessa época, não fazia mais chá e panquecas de café da manhã pra quem aparecesse no domingo. Sua filha, sim. Passava algumas vezes. Tem a mesma idade que eu. E nos deixava usar o espaço gratuitamente. Sempre foi assim.

As regras do ateliê eram poucas e claras. Escrever. Mexer no texto. Ler em voz alta. Criticar e receber críticas. Tornamo-nos amigos. Compartilhar textos é sempre um ato íntimo, pessoal. E aprendi sobre meus colegas de maneira lenta e progressiva. Conto por conto. Uma australiana. Duas americanas. Uma chilena. Um escocês. Um galês. Tantas histórias. No início desse ano de 2012, nossos contos foram publicados numa antologia de autores do ateliê intitulada “Vignettes & Postcards”. Perdi o lançamento, mas penso na S&Co. com religiosidade e afeto. No cheiro de livro com madeira. Na vista para Notre Dame. Nos amigos e confidências. No que aquilo foi na vida de todos nós, no que ainda é. Faço parte de uma história da qual me orgulho.

Hoje, portanto, agradeço, de longe, à generosidade deste comparsa sagitariano. À de sua família. À importância inestimável que todos ali tiveram na minha vida. E a conquista mais valiosa, que levarei comigo, é a descoberta de que deveria escrever. De que não poderia não escrever. De achar um fim pra esse tormento. Assumir isso pra mim foi um parto. Demorou. Doeu. Confundiu. Levou a lágrimas e alguns porres. Mas, por fim, aliviou. No meu último dia de ateliê, um dia apenas antes de retornar ao Brasil definitivamente, chorei pela despedida e pelo presente que foi aquele lugar, aquela experiência. Mas, sobretudo, porque não era mais a mesma pessoa. E tudo porque George decidiu confiar em estranhos.

 

Troca de presentes

É quase Natal e pensei em minha tia em Los Angeles, que tem a seguinte filosofia: nada diz tanto sobre o futuro promissor ou não de uma relação quanto 1) a qualidade do sono a dois e 2) a troca de presentes. Ela pleiteia que o sucesso de uma união pode estar escrito nos fios do lençol. Que o “felizes para sempre” é, em grande parte, determinado pelo encaixe coreografado da conchinha noturna. E, mais do que isso, o acerto dos presentes é fundamental. Quando o casal acerta e oferece aquilo que o outro desejava, em segredo, alcança um recôncavo íntimo de afeto. Para ela, eis a receita da longevidade de uma relação amorosa. Dormir e presentear.

Fui me rendendo a essa ideia. No Natal de 2009, ganhei uma foto do céu. Um bonequinho de tecido costurado a mão e inspirado no meu bichinho de pelúcia da infância. Um livro de trava-línguas em francês, para crianças. Dei um livro de minha biblioteca pessoal. Um cachecol usado. Um pão caseiro. Um manuscrito original rabiscado. Naquele ano em Paris, propus a minha família adquirida – meus amigos do peito, braços, pernas e fígado – que não gastássemos dinheiro com presentes. O acordo era trocar apenas pertences doados de nosso acervo pessoal ou fabricados manualmente para aquela ocasião. Éramos somente oito, não foi muito complicado. E foi o Natal mais especial até hoje.

A inspiração veio de um conto de Paul Auster e o gesto ficou. Isso porque eu já tinha uma filosofia que pratico com os demais em função do que acredito que valha para mim. Não gosto de presentear ou de ser presenteada por default. A pressão por uma compra, apenas pela premência da data, me deixa aflita. É arbitrária e rouba o significado de um gesto que deveria ser, sempre, sincero. Presentear é uma forma de amar. Deve ser feito com zelo. Quando alguém que nós amamos erra muito ao nos presentear, podemos sentir-nos mal-lidos, até malquistos. É pessoal. Provavelmente, o outro agiu sem vontade, comprou sem tesão. Um erro. Para acertar é preciso tempo. Degustação. Algo que melhora com a intimidade. E só muito de vez em quando acontece naturalmente, à primeira vista.

Há cerca de 5 anos, comecei a cortar pertences na vida. Fruto de muita mudança. Muita mala feita. Muita coisa perdida, ou deixada pra trás, com e sem remorsos. Da transição de um armário inteiro para uma única porta de guarda-roupas. Fui me desapegando das coisas extras. E preferindo ter apenas o que me fosse necessário, pois o supérfluo, cedo ou tarde, acabava abandonado na casa de alguém, quando a mala seguinte não fechava. Acostumei-me aos espaços pequenos, junto com o jetlag. E, mais do que nunca, desenvolvi apreço pelos presentes bem-dados. Os certeiros. Aqueles que eu não deixo, nunca, para trás.

E destes, não me desfaço facilmente. Meus amigos riem de mim. Sempre com a mesma bota. A mesma bolsa. O relógio de 10 anos. Dou livros rabiscados de presente. Nunca acho que é hora de jogar algo fora. Que dá para remodelar, recauchutar, bricolar. E acho que sempre fui assim. Chegada em coisas usadas, precedidas de história, iniciada lá atrás. Prefiro isso ao objeto novo, imaculado e desencarnado. Quando dou um pertence meu a alguém, ele naturalmente segue com uma parte minha, um pedacinho que não cabe num postal, que não vende no shopping. E aviso logo: não dou garantia de três meses; só vitalícia.

Porque presente bom não acaba, se desdobra em outros, gera vida. Uma viagem. Uma música. Uma visita. Um ingresso para um show inesquecível. Uma carta. O presente mais certeiro que eu já recebi foi uma câmera de fotografia Canon-AE1, faz quatro anos. Mudou meu jeito de olhar as coisas ao meu redor. Não há gratidão prevista para isso. E foi um desses à primeira vista, sem ensaio. Nunca foi deixada para trás. Replica-se. É um pedacinho de vida, uma porção de alguém. E foi, realmente, precedida de uma conchinha perfeita.

A era de ouro punk

Em outubro de 2006, fui cobrir o TIM Festival, na Marina da Glória do Rio de Janeiro. Cheguei mais cedo, sozinha, para ver a apresentação de Herbie Hancock. Recostei-me no bar, ao fundo. Ele também, cotovelos apoiados sobre o balcão. Lenny Kaye. Reconheci-o na hora. Tinha visto-o no palco na noite anterior com Patti Smith, um show que me surpreendera pelo punch. Reconheci-o, em parte, pelas longas pernas, tão finas nas skinny jeans. Lenny é um personagem ativo da bíblia punk “Please kill me” (“Mate-me por favor”), o livro escrito pelos jornalistas Larry “Legs” McNeil e Gilliam McCain, inteiramente com falas diretas de personagens reais da cena musical de Nova York, do final dos anos 60 ao inicinho dos anos 90.

Estávamos ambos sozinhos. Resolvi puxar papo. Falei que gostei do show. Ele sorriu com os lábios selados. Me comprou uma cerveja. E paramos de prestar atenção no show. Lenny me contou do show de despedida em que tocara com Patti, na última noite de funcionamento do CBGB – o QG punk. Eu devorei cada detalhe. Ali estava um sobrevivente de uma nostalgia utópica que eu jamais viveria. Contive meu entusiasmo para que a noite não acabasse rápido demais.

Após o show, Lenny precisou ir ao backstage dar satisfação a sua equipe. Ele queria ficar, ver mais shows, curtir a noite quente do Rio de Janeiro à beira mar; em suma, se jogar. Fiquei incumbida de assegurar seu bem-estar até a hora em que ele quisesse ir embora, quando a van voltaria para buscá-lo. Passamos pelas pedras da Marina para ver o mar e terminamos na tenda principal. Chegamos justo para o show de abertura do Yeah Yeah Yeahs. Não curto a banda, mas Lenny não parecia se importar. Estava se divertindo. Alguns fãs o reconheceram. Se aproximaram, tímidos. Ele bebeu pouco e dançou bastante. Magrinho de tudo, com a cabeleira abaixo das orelhas e de um branco imaculado. Terminamos a noite pulando ao som dos Beastie Boys. Nos despedimos. E nunca mais o vi.

Corta para 2011. Um amigão pernambucano me sugere ler “Just kids” (“Só garotos”), da Patti Smith. Amei e deixei o livro todo rabiscado a caneta. Nele, a poetisa punk escreve fragmentos de memórias. De sua mudança para Nova York, no fim dos anos 60, até o fim dos anos 80, período pelo qual se estendeu sua relação amoroso-artística-espiritual-fraterna com Robert Mapplethorpe, o infame artista plástico e fotógrafo. Patti foi então a Paris receber um prêmio pela publicação, concedido pela revista Inrockuptibles (Inrockuptíveis), a Rolling Stone Magazine da França. A entrega foi no Gibus, a casa-templo onde os Beatles tocaram. E fui lá com outro amigão, esse mineiro.

Chegamos na mesma hora que a autora, entramos juntos, e o que acompanhamos foi bonito. Um lugar pequeno, apertado. Ali só tinha fã de verdade. Gritaria, empurra-empurra, fotos e autógrafos? Nenhuma dessas coisas. Só aplausos. Sinceros e elegantes. Ele desfilou, com timidez enternecedora, adentrando o bar. Parou ao fundo, onde a mandaram ficar. Olhava para gente. Sem maquiagem alguma. Camiseta branca e larga. Jaqueta velha. Tranças grisalhas ao lado da cabeça. Dentes muito amarelos. Uma expressão envergonhada e sem pressa. Deu um passo a frente e me olhou nos olhos. “Não sei o que dizer. Ou fazer”, falou e deu de ombros, sem tirar as mãos dos bolsos. “É. Ninguém sabe”, respondi esperando ajudar. Parei. E prossegui. “Tenho certeza de que você ouve isso o tempo todo, mas eu realmente amei seu livro. Foi a melhor coisa que li em muito tempo. Tão honesto, tão lindo”, falei por fim, atropelada pelo silêncio ensurdecedor que ameaçou se instaurar. Ela balançou a cabeça, fechou um pouco os olhos, em gesto de gratidão.

Me calei. Passei a ela os dois livros que tinha em mãos. Ela perguntou se era a edição inglesa e respondi que achava que sim, pois tinha comprado na Europa. Ela olhou a foto da capa. Ela e Robert. “Prefiro essa foto da capa aqui, mais do que a da versão americana”. Observei-a observar o livro. Ela então assinou meu exemplar e o outro, para meu amigo. “Foi ele quem me sugeriu ‘Just kids’”, expliquei. “É um presente especial.” Peguei meus dois exemplares e dei espaço aos demais leitores, todos com livros nas mãos. Em poucos minutos, Patti estava sozinha outra vez, no canto do bar. As mãos continuavam nos bolsos. O olhar era curioso, como os nossos. Nos fitamos e ela, de novo, deu de ombros, embaraçada. Sorrimos. Me aproximei. Contei a ela meu encontro etílico com Lenny, cinco anos antes, no Rio de Janeiro. Dei o máximo de detalhes de que pude me lembrar, falando alto em seu ouvido para romper o ruído ambiente. “Esta história é a cara dele”, aprovou com bondade. Perguntei se ele ainda estava em Nova York. Contei que desde então, após uns dois e-mails, não tínhamos mais nos falado. “Ele está lá. Ele está sempre lá. Agora mais velhinho.”

Nunca fui fã de Patti Smith, nem de Lenny Kaye. Mas se existe uma Era de Ouro, para mim, ela foi Nova York nos anos 60 e 70. É meu Oásis atemporal, para onde minhas fantasias vagam num sábado à tarde. E “Just kids” é “Please kill me” apaixonado. Me rendi. A prosa de Patti memorialista, sensível e articulada, me tocou muito mais que sua poesia punk, declamada. Senti, nos dedos ao passar as páginas, seu amor por Robert. Alimentei-me dele. Lembrei-me de Lenny, no Rio, do pernambucano que nunca recebeu o livro extraviado. Nutri-me daqueles dois encontros. E o que me veio à mente, de súbito, foi esse trecho do livro: “I understood that in this small space of time, we had mutually surrendered our loneliness and replaced it with trust” (Entendi que neste pequeno espaço de tempo, havíamos ambos rendido nossa solidão e substituído-a pela confiança). E não há nada de fantasioso nisso. No fundo, toda história é sobre um amor; toda cidade também é uma história. E é no meio dos dois que voltamos a ser garotos.