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Ponto de vista

São Paulo, Junho 2018.

“O tempo das coisas”: lançamento em JF e SP

Quando você vai preparar um chá, tem o tempo de fervura da água, o momento da infusão, a espera pelo resfriamento e só então a ingestão da bebida. Não dá pra mudar a ordem dos fatores nem o tempo que cada um deles demanda. A água só vai ferver a 100 graus C, a erva precisa de alguns minutinhos na água quente pra ser infundida e se você não esperar esfriar vai queimar a língua. As coisas têm seu tempo. E embora os tempos hoje sejam de afobação, o chá ainda toma o tempo que toma pra ficar pronto. E tudo indica que vai continuar sendo assim. Saber disso, no corpo e na alma, é o que eu chamo de sabedoria.

 

Reflexões sobre o tempo são sempre bem-vindas. E também sobre a vida, cujas melhores coisas não são as coisas, propriamente ditas. A tecnologia, a correria, os olhos no relógio, os ouvidos tapados por fones nos isolam de um convívio mais próximo com o outro e de um olhar mais apurado. Não há tempo para parar, olhar e sentir.

Esse tempo que nos falta, no entanto, Maria Bitarello, felizmente o tem. Fabricou-o, optou por ele, priorizou-o e o fez virar livro, para o nosso deleite e transformação. Sim, porque será impossível não sair ao menos minimamente transformado da leitura de O tempo das coisas, sua segunda coletânea de crônicas e primeira a ser lançada pela In Media Res Editora.

São 28 textos que falam de situações banais, cotidianas e de como elas ganham importância quando recebem a devida atenção.

É impecável a reflexão da autora sobre a vida noturna, considerada por ela um ritual de iniciação à vida. E sua percepção sobre o quanto um dedo mindinho quebrado pode atrapalhar nossa rotina numa proporção inimaginável, ao mesmo tempo em que o desprender-se das coisas pode tornar nossos dias bem mais leves.

Numa parada para olhar o entorno, Maria vê que há tanta riqueza filosófica nos escritos de Nietzsche quanto na moradora de rua que se banha na Av. Paulista. E que fotografar, comer o que se quer e resistir ao uso desenfreado dos smartphones podem ser ações libertadoras. Há o envelhecimento, o aborto e a morte vistos e falados com seriedade e serenidade. E o tempo, o grande tesouro dos nossos dias. O tempo que não pode ser abreviado por ser necessário, por significar processo. O tempo da fervura da água e da infusão do chá. O tempo da parada, do olhar, da escrita e da leitura com que Maria generosamente nos brinda.

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Maria Bitarello é mineira. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e mestre em Literatura Luso-Brasileira pela Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), cresceu entre o Brasil e os Estados Unidos e viveu em Paris antes de se estabelecer em São Paulo, em 2012. É escritora, tradutora e jornalista e, desde 2015, trabalha no Teatro Oficina.

 

Ilustração da capa: Praça Roosevelt, by Letícia Coura

Os modernistas se divertem

Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Pagu (Nash Laila), Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Heloísa de Lesbos (Sylvia Prado), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Heloísa de Lesbos (Sylvia Prado), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) e Pagu (Nash Laila), Av. Paulista, 8 de março 2018

Renée Gumiel (Gabi Campos), Av. Paulista, 8 de março 2018

Tarsila do Amaral (Letícia Coura), Av. Paulista, 8 de março 2018

Vera Valdez como ela mesma, diva – Av. Paulista, 8 de março 2018

O homem amarelo (de Anita Malfatti) – Túlio Starling, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Dayse (Nash Laila), Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

O homem amarelo (de Anita Malfatti) – Túlio Starling, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Tarsila do Amaral (Letícia Coura) ao cavaquinho, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Yan de Almeida Prado (Isabela), Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Pintura de Anitta Malfatti – Joana Medeiros, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Pintura de Anitta Malfatti e seu boy – Joana Medeiros e Gabi Campos, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Personagens de pinturas de Anitta Malfatti – Grande encontro – Túlio Starling e Joana Medeiros, Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

Modernistas Futebol Clube: boy Carina Iglecias (ao fundo), Homem amarelo (Túlio Starling), Glória, a professora de piano lésbica (Cynthia Monteiro), modernista não identificada (Clarisse Johansson), boy (Gabi Campos), modernista não identificada 2 (Sylvia Prado), pintura da Anita Malfatti (Joana Medeiros), Yan de Almeida Prado (Isabela) e Tarsila do Amaral (Letícia Coura) – Largo do Paissandu (SP) – Dia do Circo

8 de março, na Av. Paulista e 27 de março,
no Largo do Paissandu – São Paulo – Brasil 2018
Canon AE-1 / Kodak Portra 400
by Maria Bitarello

Mulheres da ocupação

Mulheres da ocupação do MTST na Av. Paulista
– São Paulo/SP – Brasil (Fevereiro/2017).
Canon AE-1 / Kodak Portra 400
by Maria Bitarello

Natureza hídrica e doméstica

São Paulo, Novembro 2017.

Rabiscos rupestres

Matutu, Minas Gerais – Janeiro 2018

Tecnologia e tecnofobia

No mundo do consumo de tecnologia, existe a expressão early adopters. Ela se refere àqueles pioneiros no consumo, os que aderem cedo às novidades. Os que querem ser os primeiros a ter o novo modelo de smartphone ou videogame, os que encomendaram os óculos da Google, os que sempre conhecem os novos aplicativos e softwares que surgiram pra solucionar problemas que você não tinha. Os early adopters muitas vezes antecipam o hype e contribuem pra que ele exista, mas também cometem seus erros e aderem a modinhas que não pegam. Eles sofrem com tecnologias ultrapassadas e são nostálgicos do futuro tecnológico que não chegarão a viver, só de imaginar a quantidade de brinquedinhos eletrônicos que não chegarão a conhecer, pois serão inventados depois de seu tempo de vida terrena. Pois é, eu não sou uma dessas pessoas. Sou uma late adopter, uma aderente tardia, desconfiada; e, em alguns casos até, uma no adopter.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

O doce balanço brasileiro

Esse texto foi publicado na revista “Viagem e Turismo”, de dezembro de 2017.

Banhista na Paulista

porque uma mulher boa
é uma mulher limpa
e se ela é uma mulher limpa
ela é uma mulher boa
(Angélica Freitas)

Numa tarde especialmente chuvosa de novembro, parei o carro num sinal da Av. Paulista com a Alameda Min. Rocha Azevedo. Ali, naquela esquina, uma mulher se banhava na enxurrada. Pelada, com cabelos em dreadlocks coloridos, idade indefinida (nem jovem nem velha), estava sentada num ponto em que a água empoçou bem no encontro do asfalto com a subida do meio-fio e formou uma piscininha rasa. A chuva torrencial despencava e a mulher se lavava embaixo dos braços, fazia concha com as mãos pra lavar os cabelos, levando também água à boca pra beber. Não havia pedestres e os motoristas nos carros desaceleravam pra observá-la. Era uma cena impressionante. Seus gestos não carregavam nem um tom exibicionista nem maluco. Não se tratava de uma performance, creio eu, nem de uma doida. Havia uma naturalidade que conferia a seu banho um ar corriqueiro. “Hora da chuva, hora do banho”. E só.

Para continuar lendo, veja a coluna no site Outras Palavras.

Surrealismo acidental

São Paulo, Novembro 2017.