O caminho dos objetos

Têm coisas nessa vida que a gente não vende. Só dá. Livros, instrumentos musicais, câmeras de fotografia analógicas e bicicletas são algumas delas. Não há como botar um preço na história. São coisas que aparecem na nossa vida quando precisamos delas, e que depois deixamos ir, quando alguém precisa delas mais do que nós. E quando ganhamos um objeto usado, ele traz consigo uma história que continuamos escrevendo, dali em diante. Me peguei pensando nisso pelo muito que tem se falado em novas ciclovias, promessas eleitorais de uma cidade menos motorizada. Eu, que há pouco virei ciclista em São Paulo e que sempre adorei herdar objetos usados e passar adiante os meus, com critério. E, nesse devaneio, percebi que me lembro de todas as bicicletas que tive. De como chegaram e de como se foram.

A primeira sem rodinhas foi também a última comprada nova, em loja. Foi presente de Natal de 1987, a Caloi Ceci amarelinha. Os anos foram passando e ela foi ficando. Foi sendo adaptada, aos poucos, a minhas idades que se sucediam. Primeiro tirei a cestinha, depois a carregadeira e por fim os dois para-lamas. Subi o selim e o guidão ao máximo. Ficou comigo até não me caber mais. Até quando já não dava mais pra ler a marca na lateral do quadro. Nessa bicicleta virei menina.

Ela seguiu seu caminho quando nos mudamos para os Estados Unidos, e em Washington D.C. apareceu minha única bicicleta com freio de retropedal, do qual não gosto, aliás. Custou US$ 12 num bazar e foi roubada dali a um mês, num bairro tão pacato que eu a deixava jogada na entrada da casa, sem portão. Dela arremessei jornais nas portas vizinhas com meu amigo, Justin, nas manhãs frias de Maryland. Não tinha marca discernível, mas era uma mini-mountain bike, e me senti crescida.

Na sequência veio a Peugeot (zinha). A favorita. Custou US$ 25 e não tinha marchas. Era pura coxa. Está até hoje em Minas Gerais, negligenciada, porém guardada. A corrente soltou e os pneus esvaziaram, mas não consigo jogá-la fora. Recebi algumas ofertas por seu quadro, um suposto espetáculo da engenharia ciclista, mas nunca cedi. E depois dela, não sei por que, fiquei uns anos sem bicicleta.

Foi só após a faculdade, em Los Angeles, que encontrei a nova magrela: abandonada no meio da rua com o passador quebrado. Era uma Schwinn vintage, vinho, urbana, pneus de pista, para meninas. O selim era duro e o passador de marchas, no centro do guidão. Um tesouro desprezado. Fiquei com ela até deixar a Califórnia, embora tenha usado-a bem menos do que gostaria – o trânsito lá era selvagem para ciclistas – e, seguindo meu código ético, deixei-a com um amigo.

Em Paris, encontrei outra Peugeot (zinha). Que coisinha linda. Modelo pioneiro de bicicleta dobrável ao meio. Pequena. Branquinha. Farol movido a dínamo na roda. Andei com ela um inverno parisiense completo, exceto nos dias de neve, e com ela fiz compras na feira todos os sábados. Me manteve em forma e afastou a melancolia cinza dos dias curtos. Porque a vida é muito mais gostosa pedalando. E no verão ela se foi, aos poucos, da minha vida. Primeiro o banco foi roubado, e eu ainda continuei pedalando, em pé. Depois levaram uma roda, depois a outra, e, por fim, deixei-a na rua para que levassem o resto. Deixei que voltasse pro mar, como oferenda de fim de noite de Réveillon na Praia de Copacabana. Essa bicicleta me fez muito feliz.

Aí veio a Motobecane. Verde fluorescente, quadro feminino, urbana, veloz e conservadíssima, ela tinha muito potencial, mas não viveu o suficiente para honrá-lo. Só durou um inverno. Achei-a num anúncio online, baratinha, de um senhor francês. Pra pedalar, era obrigada a ficar numa pose empinada que eu achava muito profissional. Nem sei se era mesmo, mas me sentia veloz. Foi roubada na frente do meu apartamento. Tive muitas outras coisas roubadas, inúmeras em Paris mesmo. A frustração é a mesma. E o momento da percepção do furto é sempre de violação.

Desencanei um tempo, fiquei desapontada com tantas bicicletas indo assim, antes da hora, e peguei emprestada a de uma amiga, toda empenada, enquanto ela estava no Togo. Depois dela, uma Arcade dobrável teve uma passagem relâmpago por minha vida, sem deixar marcas. Era um fetiche urbano (pequena, dobrável, descolada), mas não gostei. Foi a única que vendi. Não estava numa época boa e talvez fosse meu inferno astral, sei lá. Ela apareceu de forma estranha e fiquei aliviada quando se foi.

Passei um tempo só na garupa. A holandesa do meu parceiro era alta e confortável, sem marchas. Gosto de pensar que, apesar de sua força física, meu bailar ali atrás também contribuía para nosso fluxo. Porque ser carona requer suingue. E não é todo mundo que sabe soltar o corpo nas curvas e facilitar a inclinação lateral.

O que me traz, enfim, à bicicleta atual. A maior barganha que encontrei em São Paulo. Barata, montada numa garagem sem nome e sem placa, em Pinheiros. Não tem marca, nem garantia. Estamos nos entendendo bem, embora o preço se reflita em sua performance. E São Paulo, ao contrário de Los Angeles e Paris, tem morro. Voltei a subir na coxa e – vai entender – pensei no André. De todas as pessoas que contribuíram para meu equilíbrio progressivo sobre duas rodas, me oferecendo suporte físico e moral quando me faltavam ambos, foi esse amigo de tantos anos da família que me colocou nos eixos.

“Você é uma mulher ou um rato?”. Esse era meu mantra aprendendo a andar na Caloi Ceci, aos 5 anos. “É claro que você é uma mulher! Agora prove!”. A aposta era sorridente, e ele me olhava firme nos olhos quando eu tinha medo. Ele acreditava em mim, na mulher que eu ainda não era. Uma confiança que me faltava e que ele podia me dar. E a partir daquele momento, minha conquista do equilíbrio seria também a dele. Tínhamos um pacto.

Ainda hoje, quando tenho medo, me lembro do André e de sua provocação. E ainda me esforço para honrar aquele olhar. Sei que, hoje, é ele quem precisa encontrar nos meus olhos, em nosso pacto renovado, a força para continuar sendo o homem que me ensinou a não ser um rato. Talvez façamos um novo passeio de bicicleta, agora juntos.

Coragem e colhões

No dia em que contei a meu grande amigo e diretor de cinema, José Sette, que eu tinha conseguido meu primeiro emprego como jornalista ele reagiu com pesar. “Perdi você para essa merda do jornalismo”, foram suas únicas palavras. O Zé foi o primeiro cineasta com quem trabalhei. Comecei no segundo período da faculdade como assistente de produção de um curta-metragem seu e conclui a parceria com a direção de produção, assistência de direção, braço direito e esquerdo e assessoria espiritual de seu longa-metragem, Labirinto de Pedra, no final da faculdade. A gente costumava sentar ao fim do dia pra conversar sobre as próximas gravações ou discutir uma locação.

As horas voavam, eram mágicas. A atenção que ele me cedia, inestimável. Entre muitos cigarros, ele prolongava as sílabas das palavras mais langorosas ao contar do exílio, fazia perguntas desconcertantes para introduzir um manifesto do cinema marginal, maldizia com superlativos o cinema atual em nome do Glauber, se emocionava com o expressionismo alemão e me cortejava com aulas teóricas sobre películas, formatos e sensibilidades de filme. Foram horas passadas em seu ateliê, entre seus filmes, câmeras, livros e quadros. Horas que agora repousam, com louvor, no alto da estante de memórias que mais estimo.

Hoje é Dia do Artista e pensei no Zé, que não vejo há anos. A lembrança me levou, com carinho, a outros artistas que povoam minha vida e até meu cotidiano. Minha fantasia de infância era viver um mundo de arte e criação, de ideias e experiências. Não sabia, então, a extensão dessa vontade, que me levaria a casar com um deles. Naquela época, eu desconfiava, mas não sabia, que a gente não escolhe se vai ser artista – é ela, a vida bandida, que nos cutuca, por trás, e no escuro. Falta de vocação ou de coragem, fico desde sempre a margeá-la, sem pular na piscina. Me contagio, me impregno e até me surpreendo quando me encontro na criação do outro. Numa música, numa foto, num quadro, num capítulo ou personagem.

Meu grande amigo escritor pulou. Ele tem o livro pronto na cabeça antes de escrever. Como? Não sei. Fica tudo ali, frases, diálogos, passagens, episódios; todos eles alinhados, com numerologia e etimologia consideradas, esperando a caminhada ao redor da praça pra decidir em que capítulo – ainda não escrito – morre o protagonista. Não consegue parar. Não pode evitar. Cria, recria e fantasia tudo. Sonha em não fazê-lo. Em viver sem criar uma história. Ainda não conseguiu e, enquanto isso, esse sonho também vira uma história.

Outro que não teve escolha foi um amigo e músico francês. Esse me assusta. Vê-lo compor é um verbo no presente: tudo ocorre enquanto o almoço fica pronto, o telefone toca e ele brinca com o violão entre duas tragadas no cigarro. Simplesmente sai. Derrama. Diferente de um amigo músico brasileiro. Com ele não é natural. Não sai fácil. Sai estranho. Sai espremido. E numa tarde de conversa jogada fora ao sofá ele me diz que para sair dez músicas que prestam, só mesmo jogando fora outras 60. “Quando você começa a compor, a primeira coisa que vem é o clichê. Aí você deixa vir o que tem que vir. Gasta esse clichê, até chegar em outra coisa, em algo melhor.” Stanley Kubrick também achava isso. Que o melhor vem do cansaço. Quando paramos de tentar demais. Quantos takes são necessários para isso? Trinta, quarenta? Não importa. Tudo o que vem antes é preparação para o take perfeito. Rascunhos. Faixas descartadas.

Acho tudo isso fascinante, como é para cada um deles. E penso no Truffaut, que tem uma frase muito boa. Ele nos diz para que “nunca esqueçamos que as ideias são menos interessantes que os seres humanos que as criam, modificam”. Sorte ou sina, tenho muitos artistas ao meu redor. E a convivência nem sempre é suave. Tampouco acho que seja do gosto de muita gente. Quando só temos contato com a obra, e não com o autor, não precisamos conviver nem amar a pessoa privada pra admirar a pessoa pública.

Mas lidar com os artistas, diretamente, é uma experiência distinta. Às vezes a vaidade é quase infantil. Também acontece de serem monotemáticos, obsessivos, até chatos. Muita gente se ofende e entendia mais do que se encanta. A ironia e o sarcasmo podem ser ácidos demais. O julgamento, exaustivo. A necessidade do aplauso, enfadonha. Entendo tudo isso, mas ainda acho que vale a pena. Criar é um tormento que deixa marcas, e a admiração que elas inspiram anda lado-a-lado com a repulsa. É preciso colhões, paciência e, sim, autoconfiança para assistir ao parto prolongado da obra até o fim e não ser arrastado para a lama quando o outro se atola. Mas para quem aguentar, eu prometo que vale a viagem. Vale por aqueles momentos – efêmeros, é claro – em que vemos o mundo com eles.

Tive uma queda pelo Nietzsche na época da faculdade. “Só como fenômeno estético podem a existência e o mundo justificar-se eternamente”, li e fiquei de quatro, no ato. Queria ter conhecido o cara. Conversado com ele. Passado horas em sua companhia, como fiz com o Zé e ainda faço com tantos outros. Meu professor e mentor percebeu o fascínio e lançou o desafio: “Queria ver quem aqui conseguia ser amigo de um cara desses lá na época em que ele estava escrevendo essas loucuras aqui. Vocês sabem onde ele chegou pra escrever isso?”. Eu não sabia, mas estava disposta a descobrir. “Eu. Eu seria amiga dele”, dizia a mim mesma, desafiando com os olhos.

Acabei descobrindo muitos lugares sombrios da criação, e tantas vezes passei por eles de mãos dadas. Não tive escolha: quem me pedia a mão era o artista, o amigo, o amante. Não neguei. Pulei. Dei a volta pelo caminho mais longo, mas acabei, eu também, dentro da piscina. Acho que o Zé ficaria satisfeito com a jornalista que me tornei. Que não teve coragem, mas teve colhões.

A virada do jogo

No penúltimo dia dos Jogos Olímpicos de Londres, a seleção brasileira de vôlei feminino venceu a americana, embora tivesse começado perdendo o jogo. O ataque não estava dando certo, mas a recepção, o saque e o emocional estavam em alta. Um dos comentaristas chamou atenção para a sabedoria que rege o comportamento dos atletas quando, diante de apenas uma falha no sistema operacional, conseguem seguir fazendo bem aquilo que está funcionando. E o resultado e a verdade disso é que com o passar dos sets, o jogo delas se acertou, o fundamento que estava manco voltou a caminhar sobre duas pernas e elas venceram de virada. Algumas horas depois da partida, fui ao cinema assistir à pré-estreia de 360º, novo filme de Fernando Meirelles, e esse comentário ficou ecoando dentro da minha cabeça.

Todos os personagens do filme estão envolvidos em relações amorosas, apaixonadas, complicadas, adúlteras ou desgastadas, adjetivos a que estão sujeitos aqueles que se casam ou se juntam. Como o vôlei, os casamentos têm épocas boas, leves e aparentemente desprovidas de esforços, e outras mais ásperas, truncadas e laboriosas. Tanto um como outro vivem de repetições, tentam romper os vícios de comportamento ou de jogadas e são fonte de grande alegria e de imenso tormento. Reconheci, em silêncio, na sala de cinema, o quão difícil é seguir adiante quando um fundamento falha, ainda que os demais sigam bem. Como esse lugar do equívoco insiste em sugar nossas melhores energias e pensamentos e enterrá-los sob escombros de frustrações e ressentimentos que, se não tratados, viram mágoas que engessam no peito e endurecem na cabeça.

O filme de Meirelles traça um círculo ao redor de personagens interconectados e brinca com o ciclo dentro de relações isoladas. Ele nos mostra momentos de escolhas: por continuar junto ou pela bifurcação. Numa vida de casados, há ofertas tentadoras pelo caminho. Outras pessoas, outras vias e vidas, outros sonhos. Há, também, imperativos: filhos, rotina, dinheiro. E quais nossas razões para ceder a elas? Curiosidade, insegurança, fadiga; somos humanos, demasiado, humanos. O mitólogo Joseph Campbell me ensinou, em O Poder do Mito, que o casamento é uma provação, uma entrega do ego pela união. E ninguém faz isso sem espernear.

Casamento é difícil e dá trabalho, mas é muito mais legal que o plano b: a vida a dois é bem mais gostosa e até mais fácil. E o segredo de seu sucesso não está em uma fórmula engarrafada. É uma vida de escolhas reafirmadas dia após dia. São essas mesmas escolhas reiteradas que fazem deste pacto algo maleável. As demandas vão mudando com os anos, junto com nossas expectativas e os dois rebolam pra lá e pra cá pra manterem o passo. O casal que acaba dando certo não é o constantemente apaixonado, nem o que briga o tempo todo. Tampouco é o que não pensa em abandonar tudo ou o que fantasia com outras pessoas. Nem mesmo é o casal fiel.

É o que fica. E ficar é andar pra frente, sempre. Senão a bicicleta tomba. Ninguém realmente sabe bem o que está fazendo, exceto que com o andar da carruagem as abóboras se ajeitam. E Meirelles parece saber que isso se faz de dentro do matrimônio, só que pelo furo no ciclo.

Um dia perguntei à minha avó se ela ainda pensava muito no meu avô. “Todos os dias”, ela respondeu. “Não posso afirmar que não houve igual, mas mulher mais feliz do que eu era com o seu avô não teve.” Lembrei do que diz Rilke: “once the realization is accepted that even between the closest people infinite distances exist, a marvelous living side-by-side can grow up for them, if they succeed in loving the expanse between them, which gives them the possibility of always seeing each other as a whole and before an immense sky” (Uma vez aceita a compreensão de que mesmo entre as pessoas mais próximas existem distâncias infinitas, uma maravilhosa convivência lado-a-lado pode nascer entre elas, se conseguirem amar a vastidão entre elas, que as dá a possibilidade de ver o outro sempre como um todo e diante de um céu imenso, em tradução minha).Os 30 anos de casada, 26 de viúva e 53 de vida que nos separam conferem a ela a ciência de algo que eu e os personagens de 360º ainda estamos aprendendo: a não esperar dos que se ama mais do que eles podem te dar. Não há amor sem perdão e somos todos incompletos, inacabados. O que a gente pode fazer é pedalar, pedalar, pedalar até poder soltar outra vez o corpo na descida.

A cura pelo próprio mal

De todas as modalidades esportivas em competição olímpica, apenas duas vêm do que eu chamaria de um instinto primário, derivações de duas ações ancestrais, presentes em todas as culturas e de motivação inquestionável para a sobrevivência: correr e lutar. Nem todas as comunidades primitivas viviam perto d’água para desenvolverem a natação ou utilizavam o arco para caçar, mas nunca ouvi falar de um povo que não corresse – atrás de uma presa ou para não o ser ele próprio presa de outra espécie – ou lutasse – para se defender, para conquistar, para seduzir, para oprimir. E os esportes contemporâneos que derivam desses dois gestos primitivos – como o boxe e o atletismo – têm supremacia negra: os negros são, aí, mais presentes e mais bem-sucedidos.

São nessas modalidades que a técnica de treinamento é posterior ao ato primeiro. Correr é instintivo, fez muita gente sobreviver nesse mundo. E reagir a um inimigo também. Luvas, sapatilhas, ringues e pistas são adereços secundários. Mesmo nós, que não somos atletas profissionais, já corremos e ainda correremos. E muitos, mas não todos, já bateram em alguém. O resto já desejou. É o gesto que vem das vísceras. E é justo aí que reside a soberania dos africanos e afrodescendentes. No físico. E se o esporte só pedisse nosso corpo, eu acredito que a seleção natural da espécie eliminaria, gradualmente, os brancos das competições. Sabemos, contudo, que não é o caso. O psicológico no esporte é uma parte tão grande do treinamento que não dá pra nos contentarmos com o argumento étnico ou nacional. A China não nos mostrou que nem os Estados Unidos são imbatíveis? O que sobra, para além das pernas, braços, pulmões e um bom treinamento, é o caráter.

E o caráter é distribuído de forma aleatória e democrática entre os povos. A verdade é que não são muitos o que são bem equipados na cabeça e no coração para lidar com o esporte profissional. Os que ainda conseguem o corte olímpico descobrem lá, na Atenas da vez, não terem estômago para o pódio. Amarelam. A maioria nem vai. E nessa peneira das mais estreitas – uma vez deixados de lado os adereços –, um branco, um asiático, um indígena e um árabe têm as mesmas chances que um negro de atingir grandeza naquilo que fazem. E como é que o fazem?

Acredito que grande parte do sucesso repouse no doce equilíbrio entre autoconfiança e humildade. É, eu sei que é dureza de alcançar, e mais ainda de sustentar. Nessas horas, os primeiros atletas que me vêm à mente são os maratonistas e os tenistas, etnias à parte. A solidão e a tenacidade destes dois atletas é real. Competições de horas em que ambos estão sempre sozinhos, presos em um corpo que grita e queima antes de atingir a dormência. Sempre arriscando uma diminuição na marcha ou na concentração porque os pensamentos tortuosos que podem os levar rapidamente ao fracasso espreitam a cada devaneio, seja pela soberba, seja pela covardia. E não há uma segunda chance.

Admiro bastante os atletas dotados desta rara capacidade de medir e calcular o presente e, a partir dele, dosar, para distribuir com moderação, a energia que resta nos corpos. E nas mentes. Não saltar nos braços da glória na metade da partida nem aceitar a derrota da vontade a meia-maratona. Dosar até a hora de soltar, a hora de chorar. Porque eles passam à beira de uma forma de loucura, e creio que nem saibam bem como fazem para regressar.

Os Jogos Olímpicos há alguns anos me aprisionam no sofá neste período de júbilo sazonal e suas imagens são as que mais me emocionam – não é algo do qual me orgulhe, acho até um pouco patético. Relaxo, com eles, na hora do gozo. O gozo que eles não tiveram muitas outras vezes em anos de preparação, disciplina, dor, alternância entre lesão e recuperação e abdicação quase total de outros tantos gozos de vida: comer, beber, sentir preguiça, procrastinar.

O espírito olímpico me fez voltar às memórias do escritor japonês Haruki Murakami, autor de um número considerável de romances de econômica beleza surrealista. “Do que eu falo quando eu falo de corrida” é uma espécie de autobiografia breve em que ele nos conta suas percepções da corrida e da escrita, hábitos do teimoso. Maratonista há mais de 30 anos, ele, que hoje já passou dos 60, faz paralelos entre as duas práticas que norteiam sua vida: da constância de ambas, do sofrimento prolongado, compensado pelo momento da chegada, e do desejo de isolamento de seus praticantes.

Pensei nele porque não sei de um povo que não conte histórias. Contar histórias é um ato primário dos homens. Escrever é artifício, uma derivação deste instinto, e a técnica vem ajudar na preservação e perpetuação da memória. Em muitas partes do mundo, até hoje, é ao redor do ancião que o conhecimento é passado. Oralmente, por cânticos, sem livros. O papel e o lápis são os adereços secundários que vieram em auxílio do contador de histórias. Depois deles, tudo é terciário.

Conheço alguns escritores, e muita gente que escreve, e a maioria confessa não gostar tanto de escrever quanto de ter escrito. Na escrita e na maratona, existem mais razões para se abandonar do que para prosseguir. Em ambas, os pensamentos de autoadulação e de autocrítica são igualmente nocivos, e as certezas só aparecem em breves janelas de lucidez. No percurso, há mais sofrimento que prazer e mais medo que coragem. Mas sempre vi a coragem como o impulso que nos leva a atravessar o medo, não a negá-lo. A autora Joyce Carol Oates tem uma bela frase em que diz que “the novel is the affliction for which only the novel is the cure” (o romance é o sofrimento que só o romance cura).

Escritores e maratonistas se levantam, todas as manhãs, para fazer tudo de novo. Passada a fase do “levar jeito pra coisa”, só mesmo insistindo, suando, editando e entregando uma parte de si. Uma parte que fica no treino, no rascunho, na obra, no Ouro Olímpico. Uma parte que vai e que às vezes não volta. E onde o esporte vem cobrar com a saúde do corpo – e a barganha é aceita em troca de grandeza –, a escrita leva uma parte da alma. Topa?

Saudades do Aeroporto da Serrinha

Adoro turbulências durante o voo. O trepidar lembra um ônibus da Cometa e aumenta minhas chances de adormecer a bordo. Já que voar é entediante e incômodo, aceito todas as formas de torná-lo mais interessante. Ali onde uns sentem medo, eu sinto presença de vida. Que venham as turbulências. E em meu histórico aeronáutico, o voo mais interessante que já tomei foi o Paris-Cotonou, no Benim, com escala em Trípoli, na Líbia, pela Afriqiyah Airways. Não pelas turbulências. Os comissários de bordo fumavam ao lado do banheiro, durante o voo, por exemplo. Os passageiros também fumavam, ao desembarque, antes mesmo de deixarmos aquele tubo que conecta a aeronave ao prédio. No Aeroporto Internacional de Cotonou, o desembarque acontece na pista, e as malas são levadas, lado a lado conosco, até o saguão interno, onde são manualmente colocadas sobre a esteira. Um lugar onde ainda sobra espaço para a acomodação e acordo pessoal.

Para entrar no país, o governo do Benim pede um visto e a cartela de vacinação carimbada no campo “febre amarela”, e eu tinha ambos. Mas, que mancada, esqueci a cartela em Paris e avisei ao oficial de saúde que veio pedi-la, vestido com um jaleco branco, semiaberto, sem camiseta por baixo, e com uma máscara de cirurgião em volta do pescoço. Ele me levou até uma salinha e fechou a porta. “Quando vencia a vacina?”, perguntou, sentando-se à mesa vazia. “Ano que vem”, me expliquei, “tomei faz quase dez anos, mas ainda está valendo.” Ele dispensou meu comentário e seguiu com outra pergunta naquele simpático francês com sotaque africano. “Era só contra febre amarela?”. “Era”, respondi. Ele acenou com a cabeça para a cadeira ao lado, onde me sentei, e tirou uma cartela novinha da gaveta. Preencheu-a com os dados do meu passaporte, carimbou-a com o selo oficial do Ministério da Saúde local e me pediu 10 euros. Eu paguei.

Este prólogo foi só pra contextualizar minha memória desse voo e desse aeroporto, porque pensei neles na semana passada quando cheguei em Juiz de Fora, Minas Gerais, de avião. Foi a primeira vez na vida que aterrissei no Aeroporto da Serrinha, ou Francisco Álvares de Assis, até recentemente o único da minha cidade natal. Foi também meu primeiro voo num avião com asas acima das janelas, desses que vemos em filmes com Humphrey Bogart e Audrey Hepburn. Muito estáveis, aliás.  O Aeroporto da Serrinha é uma simpatia. É tão pequeno que faz pouco separaram a área de embarque da de desembarque. Os funcionários do check-in são os mesmo que buscam nossas malas no avião e alguns amigos meus viraram pilotos treinados ali, no aeroclube.

Quando eu era criança, frequentava o restaurante anexo com minha família por causa do parquinho. Isso antes de eu andar num avião na vida. Uma grade móvel, dessas que vemos na frente de palcos de shows em exposições agropecuárias, separava o parquinho da pista de pouso.  E os voos panorâmicos de teco-teco até hoje são uma opção legal para os amigos que visitam pela primeira vez a região, pois de cima vemos o mar de morros que abraça a cidade e se estende ao horizonte. É bonito.

O voo do Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, ao Aeroporto da Serrinha foi lindo. Gostei muito. Foi só na manhã seguinte que fiquei sabendo do acidente que matou oito pessoas ali ao lado. Conheço muitas pessoas que vivem na região. Meu próprio avô deixou terrenos de herança aos quatro filhos, dentre eles minha mãe, logo depois do morro, da colina, onde fica a curta pista de pouso do Serrinha. O local é famoso pela serração baixa e pela má visibilidade, e o pequeno avião nem atingiu a pista, caindo dentro da pousada da família de um amigo meu, local que eu frequentei, semanalmente, por algum tempo. Nossa banda, duplodeck, ensaiava ali, num quartinho anexo à pousada, todos os sábados à tarde. Os aviões que passavam rasantes para pousar eram frequentes, e a vibração que provocavam era, por vezes, grande. A quadra de futebol era ponto de encontro dos “caras” da faculdade terças à noite e o caramanchão, a 200m da curta pista e arrancado do chão pelo bimotor acidentado, foi altar de casamentos de amigos.

O acidente me deixou pensando nessas coincidências e nas minhas memórias associadas ao Aeroporto da Serrinha quando decolei, dois dias depois, de volta para São Paulo. É um daqueles lugares onde o “sistemão” do mundo ainda não chegou direito. Existe um elemento orgânico, onde o caso-a-caso ainda impera e que, pensado dentro de nosso cotidiano corporativizado, faz dele um oásis de bom senso, como o voo da Afriqiyah Airways para o Benim. Onde ainda vemos os indivíduos e as exceções cabem na regra.

Lembrei dos amigos pilotos, voos panorâmicos, ensaios ao som de decolagem, parquinho com minha irmã e, sobretudo, na fotografia que tirei ali no meio da pista, aos 7 anos quase completos, ao lado do então candidato à presidência da república, Luiz Inácio Lula da Silva, em novembro de 1989. Essa fotografia ainda decora a casa da minha família e a dos pais de uma amiga de infância: nela, nós duas, penduradas no pescoço do ex-presidente. Ela está ao lado de outra, também tirada ali, agora em setembro de 1998, quando nós duas compactuamos com os seguranças do aeroporto e líderes do PT, que tentavam evitar que a multidão de eleitores invadissem o pequeno saguão. Atravessamos a brecha na porta e na vida e nos precipitamos em meio aos flashs dos fotojornalistas, onde empunhamos a foto de 1989, a marca própria da passagem do tempo, e ladeamos o candidato Lula, à espera dos cliques. Demorou mas conseguimos cópias da foto que saiu, enorme, no Estado de Minas.

Quatorze anos depois deste dia, Lula já teve dois mandatos e não é mais presidente; os integrantes da banda que tocava todos os sábados se espalharam por aí e agora se reúnem de vez em quando para brincar num estúdio mais equipado e no mesmo local; o parquinho, acho que não existe mais, embora as grades tenham melhorado; e a foto emoldurada daquela amizade de infância e adolescência fala de uma saudade que não passa.

Têm dias que são assim. De sossego na turbulência.

(Acervo pessoal)

Vamos falar sobre o elefante

Quando me mudei com minha família para o Colorado, em novembro de 1998, meu padastro americano foi antes para encontrar uma casa e uma escola. Em função da necessidade de proximidade entre escolas e endereços, acabou escolhendo a opção mais próxima da Green Mountain High School, onde estudei até julho de 1999. Esta casa eliminou a possibilidade de eu estudar em outra, igualmente boa e do mesmo condado de Jefferson: Columbine High School.

Com as manchetes do absurdo recentemente estampando as capas de revistas e os cabelos vermelhos do “coringa” decorando de longe as bancas de jornais, voltei a pensar no Colorado, em Columbine, em Eric Harris e Dylan Klebold e em Elefante, de Gus Van Sant, um dos filmes de maior beleza plástica que eu já vi. Me fez pensar na minha experiência do inexplicável e da adolescência.

Na minha família, dia 20 de abril é uma data comemorativa. É o aniversário de namoro da minha mãe e do meu padastro, que no ano que vem comemoram 20 anos de união. Foi o dia em que eles se conheceram e se apaixonaram, em um bar em Washington D.C., o célebre (pelo menos lá em casa) Café Lautrec. Em 1993, a data caiu numa terça. Minha mãe não me deixa esquecer. Em 1999, dia 20 de abril também caiu numa terça, e não preciso que ninguém me lembre. Eu tinha 16 anos e fiquei trancada na escola durante o tiroteio em Columbine, a poucos quilômetros dali. Outros adolescentes ao meu redor se calaram, como eu, e olharam a TV, mudos. Muitos choraram. Os professores não tiveram o que dizer. A diretoria nos mandou permanecer na escola até entenderem o que acontecia. Nesse dia, minha mãe foi me buscar, quando as portas foram abertas. Ela nem sabia o que tinha acontecido.

O Colorado é considerado um dos estados mais saudáveis dos Estados Unidos, já foi o mais visitado pelos americanos e Denver é uma cidade de porte médio e mentalidade de cidade pequena. Em português correto, é caipira. Espalhada no altiplano e margeada pelas Montanhas Rochosas, a Mile High City (cidade a uma milha de altitude, em tradução livre) está ao lado de muitas estações de esqui, tem inúmeras atividades esportivas o ano todo – do hóquei ao caiaque – e um clima espetacular quase todos os dias. Tem mais carros que habitantes e um sistema de transportes públicos ineficiente. E muitos adolescentes entediados.

O tédio. Leva à criação artística, à inovação tecnológica, a uma imaginação fértil e a formas de lazer impensadas (como meus amigos de Recreio, no interior de Minas Gerais, que empurravam vacas adormecidas no pasto. Para quem não sabe – como eu não sabia – as vacas dormem de pé). Às vezes leva também a pequenos delitos e a excessos. Matt Stone e Trey Parker, criadores de South Park, lamentaram, em um depoimento no documentário de Michael Moore, Bowling for Columbine, a impotência diante do que houve em Columbine. Este mesmo mundo escolar que, aos 16 anos, é a totalidade do universo, não é, no conjunto da obra, mais que um capítulo. Passa-se a página e recombinam-se as palavras.

Contrário ao fluxo turístico, o Colorado tem uma tradição de evasão. O espaço amplo e as montanhas ao infinito sob o céu estonteantemente azul podem ser um claustro. E escapar vira o objetivo de muitos. É a terra do John Fante, um dos que escapou. Original de Boulder, o filho de imigrantes italianos foi tentar a vida de roteirista em Hollywood. Emigrou das montanhas para o mar e viveu pobremente em Bunker Hill, no centro de Los Angeles, de onde escreveu seu mais famoso livro, Pergunte ao pó. Ele não deu propriamente certo no cinema, mas escreveu livros sobre sua condição de escritor, de miserável, de interiorano na capital. Nesta mesma época, um pequeno Neal Cassidy ia crescendo, na marra, nas ruas da cidade. Ele também deu o fora, é claro, e veio a se tornar célebre pela pluma de Jack Kerouac ao inspirar o personagem Dean Moriarty (ver última coluna A estrada de cada um).

Em Denver, como em toda parte, adolescentes buscam vida nas festas, nas drogas, nos carros em alta velocidade e no sexo. Limites. Excessos. Brincadeiras. The road of excess leads to the palace of wisdom, exalta William Blake (A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria), mas há quem pereça no caminho. As drogas circulavam de forma pouco discreta na minha escola, uma das boas da região. Os tipos que circulavam nessa mesma escola variavam dos grupinhos mais óbvios dos jocks (os atletas), roqueiros, góticos, nerds e intercambistas aos mais solitários, como a garota da minha aula de História, que todos os dias ia vestida de renda branca e longa. “A noiva”.

Me sentia careta nesse ambiente, e às vezes acuada, apesar de ser, eu também, vítima do tédio suburbano num corpo adolescente. Ouvia muita música pesada, tinha momentos de ira, de fantasia escapista, de desejo de revolução. Exorcizei meus demônios praticando muito esporte, lendo famigeradamente e tocando violão e guitarra por horas. Também tirei carteira de motorista e adorava ficar no sol. E aí passou… O tempo. E também as angústias de então. Às vezes, no entanto, a pressa é grande, e ao invés das fissuras, toma-se o abismo. Porque a adolescência grita, não cabe no peito.

O atentado no cinema de Aurora, subúrbio de Denver, também foi num dia 20, só que de julho, e o “coringa”, bestificado, que chegou a seus 24 anos, pode ser condenado à morte.  A maioria de nós vai se esquecer de que foi numa sexta-feira que isso ocorreu, mas o elefante agora já se instalou na sala de estar. Vez por outra, como agora, vamos revisitar o incômodo e ser lembrados, não sem resistência, de que ele não se foi com a condenação do culpado. E parte da vida é aprender a viver em sua companhia.

Cena do filme “Elefante”, de Gus Van Sant
(Palma de Ouro em Cannes, em 2003)

A estrada de cada um

Sexta-feira, 13 de julho, fui à estreia de On the Road (Na estrada), de Walter Salles, no Brasil, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional ali na boca da Av. Paulista. Me antecipei, fiquei ansiosa, comprei ingressos online com lugar marcado bem no meio da sala e convidei amigos com entusiasmo. Para além dos 55 anos decorridos desde o lançamento do livro de Jack Kerouac, em 1957, havia os meus de espera desde que o li pela primeira vez, em 2000, aos 18 anos. Ali peguei carona.

Minhas expectativas eram bem baixas. Não esperava chegar a parte alguma. Com todo o respeito e admiração que tenho por Salles e sua trajetória de filmes de estrada, ainda assim esperava pelo pior. Só que o pior não ocorreu. Nem o melhor. Simplesmente foi. E foi demais. Meu tio uma vez disse que no cinema francês os filmes não acabam, eles só param de passar. Assistimos a um fragmento de vida e pronto. Acabou o filme, mas aquela história continua fora das telas. Foi isso o que eu vi no cinema na sexta. Foi o que eu li no livro há mais de uma década.

E não é assim mesmo que ocorre na nossa vida? Momentos épicos, sem dúvida, permeiam o cotidiano, mas falta o final redentor com música incidental de cordas. A narrativa está sempre em construção até a hora em que cessa. O que dá pra fazer é contar um pedacinho numa coluna como essa, num livro, num diário de viagens, numa obra, numa carta. A vida sempre transborda, não cabe nas linhas, nas páginas e muito menos nas telas. E as obras de calibre são assim: quando falta algo, quando incomoda o buraco, é porque o autor acertou. Dá vontade de ler/ver de novo, ver se algo mais vai se revelar na segunda sentada. E sempre revela, mas nunca conclui.

On the Road corre como uma viagem, com altos e baixos que independem dos aclives e declives, e na maior parte do tempo segue a linha amarela no meio da pista: que não leva a parte alguma e é o único caminho. Cito Lewis Carroll: “If the destination is unknown, any road will take you there” ( Se desconhecemos o destino, qualquer estrada te leva a ele). Adiante, o livro vai. As páginas são passadas encadeadas por uma escrita solta e rítmica que pede cadência. Não há clímax, nem obstáculo definido a ser superado pelo herói. Há um sonho e uma pulsão, de vida e de morte. Como a batida à máquina de Kerouac e sua escrita sem respiro, é errático, de improviso e sem refrão, como o jazz.

Não ouso dizer que o filme de Walter Salles seja tão bom quanto o livro, e tampouco tenho peito para encarar a afirmação de que On the Road seja um livro para todos, universalmente incrível. Ele pode nem ser o melhor de Kerouac, mas é a porta. A primeira viagem. É lento e estranho, e cheio de entranhas na escrita. Li e reli seus livros, como também os de Ginsberg, Burroughs, Cassidy, Ferlinghetti e outros beats. Fiquei obcecada por um tempo. Queria ser parte da patota. Queria aquela liberdade, aquela vontade de viver, aquela sede de experiências e ausência de censura. Queria viver jazz, viajar a América, ler, amar, beber e fumar. Viver poesia.

Fecha o livro. Sobem os créditos. Os beats se foram e aquela estrada, para eles, também chegou ao fim.

Tive um professor durante o mestrado que uma vez disse em sala que se você começa um livro e não consegue ir adiante, ou é porque você não o merece ou porque ele não te merece.  Guardo essas palavras comigo, embora ache sempre muito difícil distinguir quem desmerece quem na hora do rala-e-rola. As viagens também são desta natureza: há quem viaje sem sair do lugar e quem nunca saia do lugar, mesmo percorrendo o mundo.

Eu e On the Road nos cativamos, nos merecemos, e a linha amarela que me guia no centro da pista leva a um destino desconhecido. Cada um tem a estrada que merece e a carona que te leva por ela. É só seguir.

1a edição paperback de On the Road publicada pela Viking Press em 1957

Entregar-se para vencer

O barulho da chave na porta me tira atenção do livro e levanto o olhar justo quando ele entra na sala com a mala e a mochila de equipamento. Deixo o livro aberto na página 47 pra não perder o ponto da leitura, ao lado da minha própria mala ainda jogada no chão, e ele atravessa a sala aflito, uma mão ao peito. Com algumas horas de diferença, chegamos ambos da Rio+20, a Conferência da Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, que acabou na noite anterior. Só que ele acabou de perceber que esqueceu seus HDs, sua vida e obra, no banco de trás do táxi que o trouxe do Aeroporto de Congonhas até em casa.

Mas tudo bem. Muita calma. Vamos lá. Temos um recibo: R$ 34, uma rubrica e uma placa. A letra do meio está ilegível, mas o número é com certeza 3985. Será que é um Y, um Z ou um T? Acho que é um Y. Vamos com o Y. No computador, descobrimos que Congonhas tem duas frotas de táxi, e cada uma tem mais de 600 placas. A placa que temos em mãos, inacreditavelmente, não está filiada a nenhuma das duas. Inércia compulsória – o que fazer, afinal? Aleatoriamente tentamos algumas palavras chave no google. Ligo pra uma amiga taxista que sugere a Prefeitura de São Paulo: 156. Ali me informam que o Sindicato dos Taxistas tem registro de todos os veículos e motoristas em circulação na cidade. “Mas a senhora só vai conseguir falar lá na segunda pela manhã”, me diz a voz do outro lado da linha.

Não dá pra esperar. São 18h de sábado. Saímos então em busca de um milagre. Calço uma bota por cima da calça de ginástica, descabelada e desacreditada, e voltamos ao mesmo ponto onde tudo começou. Congonhas. No guichê da companhia e após alguma insistência, uma revelação: o motorista é o Dimas e o táxi é um Meriva. Outra placa. Nada a ver com a que temos. “Outra placa?”, pergunto de forma retórica. “É, e o telefone dele mudou”, responde o funcionário. “Mas então como sabemos que é ele?”.

Enquanto eu corria pra cima e pra baixo do lado de fora rastreando uma placa errada, eles olharam as imagens de segurança da câmera do ponto. Calcularam a hora de partida, voltaram o vídeo até verem meu companheiro entrando no carro. Com a nova placa memorizada, retomo minha aeróbica térmica na noite fria pela calçada dos taxistas, buscando o Meriva e o Dimas até ambos aparecerem.

Jovem e com cara de gente boa, bem-vestido, o Dimas abre o carro pra gente e já avisa que não encontrou nada. “Eu nem olhei aí pra trás depois que você desceu”, ele diz, dirigindo-se a meu companheiro. Em vão, nossos olhos buscam os recôncavos do carro, embaixo do tapete, entre o assento e o encosto do banco, no porta-malas, sob banco da frente. Não estão ali, mas parar de olhar é pior. “Você pode nos dizer onde levou o último passageiro?” “Posso”, responde com calma, “foi no Mercure Hotel do Brooklin, ali perto da Berrini. Tô aqui com o boleto deles, tem o endereço. Acho que eles eram indianos.”

Eles? Sim. Um grupo de 21 indianos chegou ao aeroporto pouco depois do meu companheiro e solicitou o serviço de vários táxis, “uns cinco”, para levar todos eles ao hotel. O Dimas acha que eles eram indianos e sabe que não falavam português, só um no carro dele falava inglês. Voltamos ao balcão interno da companhia de táxis pra verificar, mais uma vez, a filmagem de segurança. Achamos o momento em que dois deles chegam pra comprar os boletos. Congelamos a imagem e tiro uma foto com o celular, pra reconhecê-los no hotel. O Dimas vai junto, “pro caso de os caras não acreditarem na gente”, foi o que ele disse.

No Mercure, a recepcionista desmotivada chama um dos integrantes do grupo, alguém que fale inglês. A jovem com piercing no nariz que surge é solícita, gentil e chama o rapaz da foto do celular, aquele que comprou o boleto. Em hindi ela fala ao telefone e o rapaz desce à recepção. Mostro a ele também a foto do celular em que ele próprio aparece, ao lado de um senhor. “Ele disse”, aponto para o Dimas, sentado no sofá, “que o outro homem na foto estava no táxi dele”. Todo arregalado, o rapaz me pede para esperar enquanto volta ao andar dos quartos para saber se alguém entre os demais 19 membros do grupo encontrou os HDs.

Passados mais alguns minutos desce o outro homem da foto, o senhor que falava inglês. Soltamos um “Ahh” uníssono e aliviado quando avistamos a bolsinha com os HDs em suas mãos. Salto do sofá da recepção e tenho vontade de abraçá-lo, mas pressinto o desconforto e me detenho. “Pensei que vocês fossem da polícia quando vi a foto no celular”, confessa o mais jovem. Me desculpo pelo mal-entendido e ofereço uma cerveja brasileira e amiga. Polidos e assertivos, eles recusam. Não bebem. Ainda bem que não tentei abraçá-los quando tive o impulso e me poupei de mais um desrespeito cultural prestes a ser cometido. A cerveja já era, já foi.

O clima entre nós é muito amistoso. Cordial. O indiano mais velho é advogado e, com o restante do grupo, acaba de chegar do Rio de Janeiro, da conferência da ONU, onde participou junto a uma ONG. “Nós também voltamos de lá agora”, contamos. Cuidadoso, ele faz perguntas, aqui e acolá, para ver se somos, de fato, os proprietários daqueles pedaços de plástico fabricados na China e que, não fosse pelo que contêm, teriam pouco valor. Tiramos fotos juntos. Trocamos e-mails, agradecimentos e falamos de comida indiana, uma grande favorita aqui em casa. Oferecemos nossa ajuda para o que precisarem em São Paulo e eles oferecem suas casas na Índia, “país que devemos conhecer”. Não é a primeira vez que ouvimos isso.

Já em casa e instalada após três horas de adrenalina, investigação e perseguição, volto ao livro aberto sobre o sofá da sala. “Shantaram”, de Gregory David Roberts, é autobiográfico e conta uma série de episódios na vida deste homem que, no início da história, foge da Austrália, onde foi condenado a 20 anos de prisão, e chega a Bombaim, na Índia. Na página entreaberta desde cedo, lê-se: “Sometimes, in India, you have to surrender before you win” ( Às vezes, na Índia, você tem que se entregar antes de vencer).
Contamos nossa aventura a um amigo americano de visita em São Paulo e ele disse que “só no Brasil mesmo. Isso nunca aconteceria em Nova York. Ninguém faria isso!”

Vai saber… Meu companheiro atribui o desfecho positivo à Índia, não ao Brasil: “Quando o Dimas disse que eles eram indianos, sabia que estávamos com sorte.” O episódio até se passou em São Paulo, mas o que sentimos foi uma grande presença da amiga francesa, ausente desde 2009, e que nos ensinou que as pessoas da Índia são assim, abertas. Ela também achava que a Índia devia ser conhecida. “That is how they manage to live together, a billion of them, in reasonable peace”, li mais adiante no livro de Roberts.“They are not perfect, of course. They know how to fight and lie and cheat each other, and all the things that all of us do. But more than any other people in the world, the Indians know how to love one another” ( É assim que fazem para viver juntos, bilhões deles, em razoável paz. Eles não são perfeitos, é claro. Eles sabem brigar e mentir e roubar uns aos outros, e tudo o que todos nós fazemos. Mas mais que qualquer outro povo no mundo, os indianos sabem como amar uns aos outros). É, foi sorte mesmo.

Estação da Luz, São Paulo, by Maria Bitarello

Por acaso, o passado…

Se pensarmos a velhice como a constante presença do passado, e a infância como a estrita projeção do futuro, a vida deve ser o que acontece no meio, entre estas duas esperas; uma perda dos sonhos e um acúmulo sempre progressivo de memórias. O poeta mineiro, Murilo Mendes, tem uma frase em que diz que “a memória é uma construção do futuro, mais que do passado”, e a considero bastante pertinente se aplicada à leitura da peça de André Resende, Maçã caramelada, publicada pela Editora Cubzac (em uma edição digna de ser adquirida).

No texto – curto e pontual –, Eusébio, Greta e Adílio fazem de um encontro, ao acaso, em uma antiga emissora de TV, uma reconstrução do passado e uma recriação para o futuro. A partir do acervo da emissora, que está prestes a se perder, estes três personagens paradigmáticos pensam, conversam a respeito e nos fazem pensar – nós, os leitores – sobre a persistência da memória, o legado a que damos continuidade e que seguirá quando já não mais aqui estivermos, o mal-estar provocado por nossas escolhas e consequentes renúncias que implicam e o papel que o acaso, que a coincidência, tem em nossos encontros e trombadas entre a infância e a velhice, inclusive (e sobretudo) este que ocorre entre os três e que conduz Maçã caramelada.

Adílio, em busca das projeções da infância, nos obriga a repensar a construção da memória e se em nossas estórias existiu algum dia – ou existirá – a História, ou se não passam todas de interpretações, passíveis de cair nas peças em que nos prega a memória, tão esquecida e tão passível de criatividade espontânea, recriando-se. Seria por isso menos válida?

Greta personifica nosso mal-estar contemporâneo, nossa vertigem de possibilidades, a eterna indagação inútil sobre o caminho que não seguimos, as escolhas que não fizemos e a ansiedade que emerge de sua irrealização material, porém acompanhada de sua existência vívida em nossas projeções do que seriam memórias de um fato irrealizado. Reflexo e modelo do que passamos todos nós, homens e mulheres pós-modernos.

Eusébio amarra os dois extremos, o arrependimento e a insaciedade, a projeção e a nostalgia, em um personagem ciente de que “sem registrar os momentos da vida, o passado fica mais difícil de lembrar”, mas tampouco caindo na tentação de acreditar que “porque existe não quer dizer que é eterno”. E, acima de tudo, prezando e pregando o poder da coincidência, “a única coisa em que [conseguiu] acreditar e entender como possível”, “algo revelador das oportunidades que estão em nossa volta”, pois, justamente por “parecer acasos […], revelam um mundo desconhecido que, no entanto, não estava perdido, muito menos era inexistente”.

A chave

Tenho para mim que a chave está em Zaldok. O personagem que nunca sabemos ao certo se existiu, e muito menos quem foi, é uma pessoa distinta na memória de cada um, às vezes mais que um para uma mesma pessoa. Zaldok, personagem associado a valores mágicos de nossa infância, não envelheceu, não morreu, e tem acesso ao lugar onde nossa entrada não é permitida: o futuro.

Se para Eusébio “depois daquela maçã caramelada, tudo foi sorte na vida”, o autor nos diz também que, sim, ele, como nós, entende e sente a angústia da escolha, o medo do esquecimento, a preocupação com a memória no futuro, mas, acima disso tudo, está nos dizendo, nas palavras de Eusébio, que “[aceitemos] as coincidências”, que façamos do passado uma criação dinâmica no presente e uma reatualização no futuro, que deixemos as recordações museológicas de lado, pois não existe nossa História oficial. Seu (meu) passado está tão em transformação quanto o futuro, e aprisioná-lo no arquivo é privá-lo de vida, é assassiná-lo. A maçã caramelada é o presente de Eusébio a Adílio e Greta, é o presente de André Resende a nós.

 

* Esta resenha foi publicada no Le Monde Diplomathique Brasil de 13/03/2009.

Diga-me com quem, em que e que horas andas em Los Angeles (2008)

Ford Impala @ Topanga Canyon
(by Fábio Nascimento)

Uma vez vi o sociólogo Roberto da Matta falando sobre a sociologia por trás do comportamento dos motoristas. Ele falava da nossa agressividade no volante, do sentimento de poder dentro daquela máquina blindada, de como só brasileiro mesmo que acelera o carro quando vê um sinal amarelo e um pedestre ameaçando pisar a faixa listrada. Achei a analogia muito boa e, quando saí dali, passei imediatamente a reparar no meu comportamento, e no dos demais, quando dentro de nossos veículos. E isso ficou comigo.

Agora vivo em Los Angeles, onde as leis de trânsito são semelhantes, mas o pathos por trás da analogia de Roberto da Matta é completamente diferente. Diga-me com quem andas que eu te direi quem és, assim segue o ditado. Em dialeto “angeleno” (o habitante de Los Angeles), adaptamos para diga-me em que andas que eu te direi quem és. Em pouco tempo aqui, me lembrei também da observação do personagem interpretado por Don Cheadle do filme “Crash”, de Paul Haggis e vencedor do Oscar, sobre o transporte público: os ônibus, à noite, andam com as luzes internas acesas, segundo o cara do filme, para humilhar quem anda dentro e expor o negro, o latino, o imigrante, o pobre, a mulher, a minoria.

Na época, embora conhecesse bem a segregação racial nos Estados Unidos, achei curioso. Os países europeus se orgulham de seus sistemas de transportes públicos. Não ter um carro em Londres ou Paris não é uma vergonha, é um luxo. Significa que você vive em uma cidade onde o serviço de transportes tem qualidade, segurança e cobertura. Você não se preocupa com seguro do carro, estacionamento, dirigir embriagado, manutenção – que libertação. O Brasil se diz apaixonado por carros, mas também tem seu pé europeu: na hora de alugar um imóvel, pesa muito a distância da estação de metrô ou do ponto de ônibus.

À exceção de Nova York, os Estados Unidos são uma terra de carros. A cultura automobilística é fortíssima. Mas nunca havia visto nada parecido com Los Angeles. Para começar, o metrô é uma piada, pior que o do Rio antes de ser expandido. E Los Angeles, me permito a comparação, é tipo Brasília. Um lugar visivelmente diferente do resto do país e que divide as opiniões com veemência: os que amam e os que detestam. E os carros têm papel importantíssimo nessas reações.

Com freqüência os amigos do Brasil me perguntam se moro perto da praia. Normal, afinal faz parte do imaginário da cidade das estrelas: Malibu, “Garota eu vou para a Califórnia”, e por aí vai. Respondo com dúvida. Em termos brasileiros, estou longe, pelo menos 20 minutos de carro (sem trânsito), nem sei calcular a que distância a pé. Em escala americana/angelena, vivo à beira mar. Para entender, olhe um mapa da área metropolitana da cidade e veja sua extensão. Uma linha imaginária divide a cidade em Leste e Oeste, assunto para outra coluna, e como habitante do Oeste, sou, para eles, da praia.

Os 20 minutos a que me referi acima são muito interessantes. Por aqui ouvimos muito que quaisquer dois pontos de Los Angeles estão a 20 minutos de distância entre si (sem trânsito). O que é verdade, pois com as super freeways construídas sobre a cidade, você potencialmente voaria de uma extremidade à outra. Mas a gente sempre coloca essa informação no final, sem trânsito entre parêntesis, como se ela fosse um detalhe. Até parece. É a regra, praticamente um toque de recolher! Com ou sem previsão, esses 20 minutos podem virar duas horas e definem mais seu comportamento aqui do que seu dinheiro, sua raça, sua classe social. Pobres e ricos, Britney Spears, Angelina Jolie e eu, somos todas reféns do trânsito. Diga-me a que horas andas que eu te direi quem és. Por que acha que Lindsay Lohan só é pega de madrugada voando acima do limite de velocidade em sua caminhonete? Voar de dia, só de avião ou helicóptero.

Algumas dessas dicas são leis. Idas ao cinema são marcadas com semanas de antecedência, nunca sai-se de casa sem uma breve pesquisa no Google Maps se você não tiver um GPS, só para ter certeza de que sabemos onde vamos e de que se chega a algum lugar naquela hora, e nunca programe mais de uma coisa no mesmo dia. Das 6h às 9h, engarrafamento. Sem dúvida, em todas as direções. Uma breve janela de horinhas nos deixa vislumbrar como seria lindo se o fluxo de carros fosse 15 vezes menor. Às 14h, 14h30, complica de novo. Daí vai até umas 19h. Sexta-feira: trânsito o dia inteiro, ainda não entendi porque. Sábado e Domingo, formigueiro humano no sentido da praia e um maravilhoso deserto no restante.

Já dizia Caetano que cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. Uma conhecida uma vez me apontou que o maior orgulho do angeleno é a Interstate 405, a San Diego Freeway, que corta a cidade de Norte a Sul, perto do mar. Muitas outras cortam a cidade além da 405: a 10 (Santa Monica), a 110 (Harbor), a 101 (Hollywood), para citar as mais centrais. São a padaria da esquina. As vemos todos os dias, são nossas referências e as apontamos com orgulho ao visitante: “olha a 405!”. Encucado, com certeza, o coitado se pergunta “e daí?”. Eu também me fazia essa pergunta quando cheguei aqui, mas, lentamente, sem me dar conta, a 405 foi virando para mim o que é para eles: nossa maior dor e estranhamente nossa secreta delícia. Nesta terra de bens descartáveis e de beleza arquitetônica escondida, as freeways são o maior símbolo da vontade humana que transformou um deserto sem rios em cidade. Mais que a praia ou Hollywood, o angelino se orgulha de suas estradas. E só o tempo ajuda a entender.